Vilém Flusser: A Dúvida (Nome próprio, ameba e Deus)

No capítulo “Do nome”, no livro A Dúvida (2011, Editora Annablume), Vilém Flusser já se antecipa dizendo que irá se preocupar nas próximas páginas em fazer uma reflexão sobre o intelecto e suas limitações, tratando da valorização excessiva do mesmo, “acompanhada do desespero quanto à capacidade do intelecto de pôr-nos em contato com a realidade”.

Apesar de o intelecto ser a nossa “única avenida de acesso à realidade”, esta passagem está, no entanto, de acordo com o autor, interditada por um processo de intelectualização do intelecto — a chamada “dúvida da dúvida”, que é responsável pelo niilismo no qual nos encontramos.

Para superar esse estágio, em vez de abandoná-lo, poderíamos então passar a analisá-lo. E, ao fazer isso, descobrimos que o intelecto possui fronteiras, as quais nada têm de misterioso, místico ou sagrado:

“As fronteiras que barram o avanço do intelecto rumo à ‘realidade’, rumo a ‘Deus’, não são arcanjos de espadas flamejantes a serem vencidos em luta, nem são fúrias infernais a serem encantadas orficamente. Essas fronteiras são algo muito prosaico, a saber: os nomes”.

Segundo Flusser, “as últimas fronteiras do intelecto, o ponto no qual o intelecto para e deixa de funcionar, são nomes de um certo tipo, chamado ‘nomes próprios’”. Desse modo, as palavras podem ser classificadas em dois tipos: nomes próprios (palavras primárias) e palavras secundárias (todas as demais palavras).

Enquanto nomes próprios são palavras que muitas vezes chegam até mesmo a pedir por gestos para podermos expressá-las, as palavras secundárias são facilmente ditas, conversadas — daí a diferença. Diz Flusser que os nomes próprios, ou as palavras primárias, são palavras chamadas, enquanto que as palavras secundárias são palavras conversadas.

De qualquer maneira, um nome próprio pode se tornar uma palavra secundária — um substantivo, por exemplo. Ele pode se concretizar. Para explicar melhor o que quer dizer, Flusser usa como metáfora uma ameba. Ao emitir um pseudópode, ela captura algo extra-amébico e o ocupa, trazendo-o para a realidade amébica e formando um vacúolo ao redor daquilo. Esse objeto passa a fazer parte da ameba sem que, no entanto, esteja incorporado ao seu metabolismo. Conforme o vacúolo se fecha, aquilo que foi absorvido é gradativamente transformado também em ameba, em protoplasma e, consequentemente, em realidade amébica.

E, nesse sentido, o pseudópode faz a atividade do chamar enquanto o vacúolo corresponde ao nome próprio; o objeto ao ser absorvido se relaciona ao significado extralinguístico do nome próprio e a digestão do mesmo se trata da conversação. Já a ameba, segundo Flusser, é a língua como um todo e, levando-se em conta sua anatomia, composta de vacúolos e protoplasma, estes correspondem à classificação das palavras, entre nomes próprios e palavras secundárias.

Ainda nessa metáfora, o ambiente em que a ameba se situa, o território externo à ela, onde emite seus pseudópodes, é, para Flusser, o “vir-a-ser da ameba. A ameba é a realização, por protoplasmatização desse território. A ameba se expande para dentro de suas potencialidades, que são, do ponto de vista da ameba, vacúolos em statu nascendi”. Mas se, no entanto, a ameba capturar um cristal de quartzo, ela até é capaz de encapsulá-lo em seu vacúolo, porém não conseguirá digeri-lo. “Todas as contrações do vacúolo resultam em vão, o cristal continuará sempre como um corpo estranho dentro do protoplasma da ameba. O melhor seria expeli-lo, a não ser que o cristal sirva, justamente, por ser o corpo estranho, de estimulante ou catalisador dos processos metabólicos da ameba”.

Trazendo isso para o aspecto humano e o campo do intelecto, Flusser diz que a “a língua pode emitir os seus chamados para dentro do seu vir-a-ser, que são os nomes próprios in statu nascendi, em todas as direções possíveis” (assim como a ameba) — tudo é possível de ser chamado e todos esses apelos resultarão em um nome próprio.

“Podemos dizer que tudo pode ser apreendido pelo intelecto. Entretanto, nem tudo pode ser transformado em palavra secundária. Nem tudo serve para ser utilizado como sujeito e objeto de uma frase significativa. Nem tudo pode ser assimilado à engrenagem da língua. Nem tudo pode ser compreendido. Os nomes próprios inassimiláveis continuarão sempre como corpos estranhos dentro da estrutura da língua, continuarão sendo apelidos. Um exemplo típico desses apelidos, desses nomes próprios inassimiláveis que são apreendidos sem jamais serem compreendidos, é a palavra Deus. Como a estrutura química do protoplasma da ameba se recusa a assimilar um cristal de quartzo, assim a estrutura das nossas línguas se recusa a assimilar a palavra ‘Deus’. Não obstante, justamente por ser inassimilável, pode, talvez, servir de catalisador dos processos linguísticos autênticos. Pode estimular a conversação, sem jamais poder participar autenticamente dela”.

Isto é, apesar de Flusser acreditar que podemos apreender tudo através do intelecto e transformar tudo em nome próprio (dar nome a tudo, ser capaz de chamar tudo), nem tudo é possível de ser apreendido, ser conversado, ser transformado em palavras secundárias ou conversação. Assim como a ameba é capaz de capturar um cristal de quartzo, mas não o digere, nós também conseguimos capturar a noção de Deus, mas não conseguimos digeri-la. Mesmo assim, conseguimos conversar sobre isso, porém a conversa nunca é realmente autêntica porque nunca realmente digerimos o nosso cristal de quartzo chamado Deus. Estamos sempre comendo pelas bordas.

“Eis uma nova limitação do intelecto que surge à tona. Embora tudo possa ser chamado de nome próprio, embora tudo possa ser apreendido, pelo menos em teoria, nem tudo pode ser compreendido pelo intelecto. Nem tudo pode ser conversado. Chegamos a essa conclusão não por alguma especulação mística, mas pela observação intraintelectual de corpos estranhos que são os nomes próprios inaplicáveis a frases significativas. Não podendo servir de sujeitos e objetos de frases significativas, não se transformam estes nomes em palavras secundárias e continuam apelidos, isto é, símbolos sem significados, símbolos vazios. Não obstante, podem ter importância, às vezes decisiva, para o processo intelectual”.

Por mais que esses nomes sejam símbolos vazios ou simplesmente apelidos, os quais até mesmo se desdobram em diferentes nomes (os nomes de Deus), eles continuam fertilizando processos intelectuais, múltiplas culturas e sociedades em torno disso.

Eu ainda estou fazendo minha leitura desse capítulo e também do livro, mas certamente Flusser teve contato com a obra de Wittgenstein para se inspirar nessas ideias que já vêm desde o capítulo anterior, quando ele já falava sobre palavras e realidade. Mas acredito que essas questões sejam ainda mais discutidas em Língua e Realidade (1963), porque A Dúvida é um livro originalmente publicado em 1999, sendo uma publicação póstuma, no caso — não sei quando foi escrito de verdade.

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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