Sombras, sonhos e o inconsciente em James Hillman

Depois de ter lido A terrible love of war, de James Hillman, passei a gostar bastante das ideias dele, especialmente também porque ele é um pós-junguiano. Então, na última feira do livro na USP, dando uma olhada aleatória na mesa da editora Paulus, descobri esse livrinho de menos de 140 páginas chamado Uma busca interior em psicologia e religião. Eu não entendi direito pelo título o que eu encontraria e, nas primeiras páginas, fiquei em dúvida se aquilo se tratava de um manual para terapeutas e pastores que orientam a comunidade ou se o livro também não era algo até meio autoajuda. Acredito que não seja nem um e nem outro, mas a escrita de Hillman é bem mais didática e próxima ao leitor do que a de Jung, por isso talvez passe essa última ideia.

A aproximação básica dele, até então (estou entrando no terceiro e penúltimo capítulo), é abordar as conexões e disparidades entre religião e psicologia, bem como discutir o que é o inconsciente e como ambas as áreas trabalham essa questão. As citações que separei vêm do segundo capítulo, no qual o autor trata da existência do inconsciente, suas características e o sonho como uma manifestação do mesmo. Nesse sentido, encontrei pontos com os quais eu trabalhei na minha dissertação, como a noção de um outro em mim mesmo, que é a sombra/inconsciente, e como trabalhar com isso (chegando a usar a metáfora alquímica).

Esses trechos, para mim, foram alguns dos mais elucidativos e interessantes do segundo capítulo (Vida interior: o inconsciente enquanto experiência) e a primeira página do terceiro (A escuridão interior: o inconsciente enquanto problema moral). Por esse motivo, é possível que eu retorne com uma continuação desse post, com mais citações do terceiro capítulo.

Pela emoção temos a percepção de não estar sozinhos em nosso interior, de não nos controlar totalmente, de que existe uma outra pessoa (mesmo que seja apenas um complexo consciente) que também tem alguma coisa (e frequentemente não pouca) a dizer quanto ao nosso comportamento. Assim, o encontro da alma por meio do inconsciente também é mais uma descoberta na qual tropeçamos. Caímos em emoções, humores, paixões e descobrimos uma nova dimensão que, por mais que tentemos fugir, acaba nos levando para baixo, em direção ao mundo de nossas profundezas.

(p.54)

Os alquimistas tinham uma imagem excelente para expressar a transformação do sofrimento e do sintoma em valor espiritual. Um dos objetivos do processo alquímico era a obtenção da pérola de raro valor. A pérola tem início com um fragmento duro, um sintoma neurótico ou uma queixa, um agente incômodo e irritante no ponto mais secreto de dentro da carne, do qual nenhuma couraça pode nos defender. Ele é recoberto e trabalhado dia após dia, até que o fragmento acaba se transformando numa pérola. Mas mesmo assim ela ainda precisa ser buscada nas profundezas e depois aberta para libertar-se. Quando, então, o gramento já se encontra redimido, pode ser utilizado como jóia. Deve ser conservado junto ao calor da pele para manter o seu brilho: o complexo redimido, e que antes causava sofrimento, surge agora aos olhos de todos como uma virtude. O tesouro exotérico, conseguido através do trabalho oculto, transformou-se em esplendor exotérico. Livrar-se do sintoma significa desperdiçar a chance de conseguir aquilo que um dia poderá ter grande valor, mesmo que de início se apresente sob uma forma insuportável, irritante e como algo baixo, disfarçado.

(p.57)

Familiarizando-me com meus sonhos, conheço melhor o meu mundo interior. Quem vive em mim? Por que, de repente, me afasto assim das coisas? O que é recorrente, e portanto, vive voltando para permanecer? São animais, pessoas e lugares, preocupações que me pedem atenção, querendo tornar-me seu conhecido e amigo. Pedem-me para cuidar deles e dar-lhes importância. Essa familiaridade, depois de algum tempo, produz a sensação de estar à vontade e em casa com uma família interior, o que nada mais é que a vida em comum e a comunidade comigo mesmo, num nível profundo do que também pode ser chamado de “espírito consanguíneo”.

(p.58)

Os problemas morais constelados nos setores dedicados ao serviço de finalidades mais elevadas são mais espinhosos, sendo aqui a divisão entre o bem e o mal particularmente estranha. Parece que enquanto tentamos iluminar, buscar a verdade e fazer o bem, um lado oposto cresce com a mesma intensidade. É um fenômeno tão independente da intenção de nossa consciência, tão difícil de ser enfrentado com firmeza e igualdade que, gradualmente, uma dissociação acaba por nos dividir. Na melhor das hipóteses aguentamos a tensão, sofrendo a dor moral. Na pior, reprimos a ruptura e o mundo se ressente dela como hipocrisia e traição. Muito dificilmente se resolverá a divisão entre prédica e prática, consciência e sombra, força da loucura e força da sabedoria, escolhendo-se um em detrimento do outro. (p.71)

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on December 2, 2014.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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