Natural:mente . Vales, por Vilém Flusser

Há alguns dias comecei a leitura do livro Natural:mente (2011), de Vilém Flusser. Publicada pela editora Annablume, a obra é dividida em capítulos que falam sobre diversos assuntos misteriosos até que você pare para ler a respeito, mas aparentemente é possível ler tudo sem precisar ser na ordem. Com subtítulo “Vários acessos ao significado de natureza”, o livro gira em torno do mote “natural mente”, como o prefácio de Gustavo Bernardo antecipa. E o primeiro capítulo também trata sobre isso, “Caminhos”, ao tratar sobre as diferenças e proximidades entre natureza e cultura quando Flusser fala sobre o Passo de Fuorn, Carnac, a Transamazônica e o Eixo Monumental. Mas esse trecho não me chamou muito a atenção quanto o capítulo seguinte, intitulado Vales, quando o autor inicia falando sobre mapas e perspectivas, iniciando-se com uma linguagem poética ao narrar e descrever a paisagem e a composição mesmo social dos vales.

Não surpreendentemente: as “humanidades” têm mapas contrários aos da “ciências da natureza”. O tempo corre em direção oposta nas duas disciplinas. Nas ciências da natureza corre rumo à entropia; nas humanidades, rumo à informação crescente. A água corre em direção oposta à do rio da humanidade. A estratificação histórica do meu vale se opõe à sua estratificação geológica, como o “espírito” se opõe ao mundo. Porque o mundo é passagem, e o “espírito” é aventura. (p.34)

Se nas planícies é onde vivem os engenheiros, os homens das ciências da natureza, é nos vales que vivem os homens tais como o autor — os homens das “humanidades”. É nesse lugar onde ficam as tradições e a memória, “no sentido platônico, biológico, psicológico, cibernético (e talvez outro). Vales, no meu mapa, são armazéns da informação. Conservadores tradicionais, portanto. No meu mapa, o progresso corre morro acima para ser armazenado nos vales mais estreitos” (p.35). Mas os vales são orgânicos e articulados, não recebem qualquer tipo de informação, do tipo de “massa”, “portanto, o progresso massificador da planície se destina a ser articulado (“humanizado”) nos vales” (p.36).

Vales abrigam fauna e flora com sua própria economia e estrutura social, arquitetura, música e lendas. Vales não comunicam entre si, mas apenas com a planície. Vales são “os lugares nos quais os discursos da planície são dialogados. Por isso, vales são os lugares de pensadores e poetas. Desde Heráclito até Nietzsche. Desde Davi até Rilke. Mas não para profetas. Profetas não habitam vales” (p.37).

Os profetas passam pelo vale e o usam como canal comunicador até o cume da montanha. De lá, retornam para a planície, onde contam a “nova”, a visão que tiveram do cume. O vale, desse modo, é canal bivalente, de ida e volta, sendo primeiro uma passagem entre a alienação massificada e a solidão e por último entre a solidão e o engajamento. O vale, portanto, torna-se o caminho do profeta.

Sobre esse trânsito no vale, Flusser escreve:

Quem jamais subiu pelo vale, jamais viveu. Vegeta no plano. A terceira dimensão, a do sublime, lhe falta. Mas quem subiu pelo vale e lá ficou, tampouco viveu. Arrancou suas raízes, é verdade, desalienou-se. Mas ficou no ar, na disponibilidade. Deve decidir-se. Subir mais ainda, ilosar-se mais ainda naqueles cumes que Rilke chamou “os do coração”, os quais nem sequer águias habitam. arriscar-se À solidão da qual Unamuno diz que nela “perdeu a sua verdade”. E em tal decisão não pode esperar por nenhum Virgílio, ou Godot, ou não importa que guia alpinista. Ou então voltar à planície sem ter corrido o risco da subida, não, por certo, para reintegrar-se, mas para engajar-se. Porque, para quem está no vale, a integração se tornou impossível. É para ele, doravante, sinônimo de promiscuidade. Por ter subido o vale, é apocalíptico, e jamais poderá voltar a ser integrado. A “volta” jamais pode ser cancelamento da “ida”. Quem volta não é o mesmo, é alterado. Ficou informado, mesmo se não subiu até o cume. Eis a decisão que deve tomar quem subiu pelo vale: solidão sem garantia de volta, ou volta sem ter visto o cume. (p.38)

Ainda, quem já nasceu no vale, nem por isso está numa posição melhor, porque daquela posição vê a bruma e não enxerga que abaixo de si ainda há a planície e, por isso, acreditam que nasceram em cima das nuvens. De mesmo modo acontece com os que nasceram na planície e nunca subiram para o vale, acreditando que a bruma é o céu.
Vales, portanto, são caminhos da decisão, lugares concretos. “Lugares, nos quais se torna necessário, em dado momento, jogar fora todos os mapas, sob pena de se pairar no ‘sobrenatural’, no ‘teórico’, na ‘perspectiva’” (p.40).

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on March 17, 2014.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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