Morte e cultura. Como devemos sobreviver na memória dos outros

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Na semiótica da cultura, o termo “texto” é utilizado para se referir a um conjunto de signos. Esse conceito é encontrado tanto na obra do semioticista tcheco Ivan Bystrina quanto nos textos do teórico russo Iuri Lotman. Vou me focar principalmente na obra de Bystrina, inicialmente, e na aula que ele ministrou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 1995, a qual foi transcrita e nomeada “Tópicos de Semiótica da Cultura”.

Nesse trabalho, o texto é indicado como um conjunto de signos que têm valor comunicativo e informativo, expressivo, emotivo, estético e social. Essa mesma noção também aparece na Semiótica da Cultura sob o nome de “imagem”, como já vemos desde o prefácio do livro Emoção e Imaginação (2014), organizado pelos professores Norval Baitello Jr. (PUC-SP) e Christoph Wulf (Freie Universität Berlin). É Baitello quem principalmente usa o termo imagem para se referir não apenas às imagens visuais, mas também às auditivas, olfativas ou até mesmo as imagens proprioceptivas (as imagens que temos de nós mesmos e as quais, segundo o pesquisador, são pouco estudadas).

Isto é, textos também não dizem respeito apenas à forma escrita e gramatical, mas também se refere a imagens, ritos, mitos, sons etc. E, segundo Bystrina, esses textos existem desde os estágios primordiais da humanidade, porém foram perdidos ao longo do tempo. Quer dizer, se o homem surgiu na África há 200 mil anos, mais tarde conquistando seu comportamento moderno (há 50 mil anos), fazem no entanto apenas 5.500 anos aproximadamente que a história passou a registrada. Dessa forma, não sabemos exatamente como se davam as dinâmicas de mímica ou como a fala surgiu entre os homens primitivos.

No entanto, foi encontrado na Turquia alguns vestígios de pólen que provieram das flores usadas pelos homens de Neandertal durante seus ritos funerários. Além deste texto primitivo, há ainda pinturas rupestres feitas no Paleolítico. Elas foram feitas em cavernas que, vale ressaltar, não eram utilizadas como moradia, mas como templos. Outras imagens também eram feitas em rochas, bem como esculturas eram confeccionadas a partir de ossos, chifres e outros materiais.

Portanto, Bystrina divide esses textos em três categorias: textos instrumentais, racionais e criativos e imaginativos. Os textos instrumentais dizem respeito ao cotidiano do homem, são extremamente pragmáticos e técnicos. Já os racionais dizem respeito às ciências naturais, à matemática, por exemplo. Os textos criativos e imaginativos englobam mitos, ritos, ideologias, ficções e obras de arte.

Apesar de fazer essa separação, Bystrina indica que hoje em dia, principalmente, é difícil de encontrar um texto puramente instrumental ou racional. Ainda assim, há exemplos que são exímios textos instrumentais, como uma lista telefônica ou uma tabela de horários de trens e metrôs — ambos não demandam criatividade ou pedem por um maior raciocínio na hora de serem interpretados. Textos puramente racionais também podem ser verificados em teses e dissertações ou na matemática. Contudo, ainda no âmbito das ciências exatas, isto é, na Física, a Teoria da Relatividade não se encaixa apenas como um texto racional, uma vez que exige uma maior abstração para ser entendida — portanto, trata-se de um texto racional, mas também criativo e imaginativo.

O semioticista tcheco indica que os textos instrumentais estão presentes desde o início da humanidade e são essenciais para a sobrevivência da espécie. Já os racionais apareceram mais tarde, em civilizações mais avançadas como a Grécia e a China antigas. Os textos criativos e imaginativos, porém, são os que predominam na cultura humana e os quais dão sustento aos aspectos físicos, materiais e psíquicos do homem.

Por cultura, Bystrina entende um conjunto de textos, sendo eles obras de arte, mitos, rituais etc. Todos eles são organizados gramaticalmente a partir da língua e culturalmente. São eles que, como cultura, vêm com a função de superar o medo existencial humano. Ou seja, acredita-se que o homem seja o único animal ou ser vivo que tem noção de que irá morrer. Apesar de elefantes recorrerem a um cemitério de elefantes no fim de suas vidas, não quer dizer que eles estejam cientes de que irão morrer desde meados de sua existência. O homem, no entanto, ao aprender que irá morrer (Memento mori) acaba se vendo numa situação de horror à morte e de niilismo, o qual pode ser resolvido a partir de elementos culturais que darão um significado à existência, por exemplo.

Nesse sentido, Bystrina ainda faz uma outra divisão na ideia de texto a partir dos códigos, que podem ser primários, secundários ou terciários. Os primários dizem respeito especialmente ao âmbito biológico do ser humano, tal qual o código genético. Os secundários estão relacionados à língua, sendo uma possibilidade a gramática. Já os códigos terciários são aqueles que formam a cultura e eles aparecem, principalmente na cultura ocidental, ocidentalizada ou ocidentalizante, a partir de binômios. Esses dualismos geram uma oposição entre polos que, inclusive, carregam uma valoração. Assim, como indica Bystrina, torna-se mais fácil para o homem fazer suas escolhas.

Entre prazer e desprazer, saúde e doença, vida e morte, podemos encontrar uma desarmonia entre os polos — principalmente no caso vida e morte. Valorada negativamente de maneira muito mais intensa que o polo da vida, a morte gera uma assimetria pela sua inexorabilidade. Por isso, lembra Bystrina, é que em muitas culturas (senão todas) o homem está em busca da imortalidade. E para tentar superar esse desequilíbrio, os seres humanos acabam operando a partir da irracionalidade, sustentando-se em mitos, ritos, religiões e diferentes códigos terciários, textos de cultura. Nesse sentido, o homem acaba criando uma “Segunda Realidade”, como indica Bystrina.

Essa mesma noção aparece na obra do antropólogo Edgar Morin, inclusive com um nome parecido: Segunda Existência. Em O Enigma do Homem, o francês detalha essa noção de que o homem, em agonia diante da morte como algo inevitável, recusa-a e a transpõe para o nível dos mitos e ritos. Esses recursos são, aliás, muito bem trabalhados em seu livro O homem e a morte. E, nesse sentido, o homem acaba amenizando a assimetria criada e convive com os conceitos de vida e morte de maneira que um não anule o outro.

Morte como raiz da cultura

Seria possível, então, pensar a morte como uma propulsora, uma inspiração para que o homem crie cultura, a partir de mitos, ritos, imagens e diferentes textos. Ivan Bystrina não mencionou isso em sua obra, tendo incluído como raízes da cultura as quatro possibilidades: o sonho, o jogo, as variantes psicopatológicas e os estados alterados de consciência. No entanto, ao descrever o sonho, Bystrina menciona a mitologia grega, na qual o deus do sono é Hipnos, o qual é irmão gêmeo de Tânatos, deus da morte. Além disso, o então aluno de Sócrates, Xenofonte, costumava dizer que o sono era o momento, em vida, mais próximo da morte.

Outra questão levantada em Tópicos de Semiótica da Cultura é a dificuldade que as crianças, em sua primeira infância, têm de diferenciar o sonho da realidade, principalmente quando esse sonho é ruim. Isso faz parte do processo ontogenético humano e também, possivelmente, vai ao encontro da formação filogenética da espécie, uma vez que o homem, em seus primórdios, também não conseguia fazer essa diferenciação.

Mais um exemplo dado por Bystrina é o mito da criação dos aborígenes australianos, que acreditam que os primeiros seres desenhavam em rochas aquilo que sonhavam (plantas, animais etc), dando assim materialidade e vida a essas imagens internas. De maneira semelhante acontece no mito de Javé como um escultor de matéria-prima que, a partir de um sopro, confere vida aos objetos — isto é, dá-lhe o espírito. E o interessante é que o termo espírito vem do Latim spiritus, que significa sopro, respiração. O equivalente grego seria “pneuma”, que também está relacionado a vento, enquanto que no hebreu tanto a palavra para alma (ruach) quanto para espírito (neshama) também dizem respeito à respiração.

Nesse sentido, esses mitos contam a transposição de imagens internas (endógenas) para imagens externas (exógenas). Esse conceito é trabalhado principalmente pelo historiador da arte alemão Hans Belting e também faz parte do artigo de Norval Baitello Jr. em Emoção e Imaginação (2014) — o qual especialmente trata desse movimento interior e exterior.

Belting, aliás, em Antropología de la Imagen, menciona que nobres do século XV encomendava retratos seus na esperança de ter sua memória sobrevivente após a morte de seu corpo. Ou seja, a sua existência prosperaria num outro corpo, a imagem, que, para Belting, funciona justamente como um “segundo corpo”. Esse foi o mesmo intuito também de Francisco Sassetti, nobre italiano que encomendou a construção de uma capela que levaria seu sobrenome e se situaria em Florença. Philippe-Alain Michaud narra em seu livro sobre a obra de Aby Warburg, teórico da imagem alemão, que Sassetti encomendou painéis nos quais a sua história pessoal era relacionada à história de São Francisco. Essas imagens se encontram ao redor de seu túmulo e o de sua mulher. Para Warburg, inclusive, “os retratos na parede de sua capela refletem seu desejo de viver [Daseinswillen], o qual a mão do pintor obedece ao manifestar ao olho o milagre de uma face humana efêmera, capturada e afixada pelo seu próprio bem” (apud Michaud, 2004, p.114).

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Capela Sassetti

De maneira semelhante ocorreu com os humanistas da reforma alemã que, conforme Belting discorre, confiavam em seus textos como uma forma de sobrevivência, de permanecerem vivos e lembrados a partir de suas obras, lidas futuramente por diferentes gerações. Alguns, contudo, ainda chegavam a encomendar medalhões nos quais seus rostos seriam registrados — foi o caso de Erasmo de Rotterdam.

Isso tem a ver com o que o pensador tcheco-brasileiro Vilém Flusser indicou em uma frase que se tornou também título de um documentário sobre ele: “We shall survive in the memory of others”. Ou seja, devemos superar a morte e sobreviver na memória dos outros, em forma de informação, de imagens endógenas. Em sua autobiografia filosófica, Bodenlos, Flusser comenta sobre sua amizade com o escritor brasileiro Guimarães Rosa e como este submetia seus trabalhos a traduções muitas vezes grosseiras (mesmo porque sua obra é cheia de regionalismos e neologismos difíceis de serem expressados em outras línguas). No entanto, é entendido que Rosa tinha medo da morte e de ser esquecido, por isso queria, de certa forma, a fama: desejava que cada vez mais pessoas tivessem acesso ao seu trabalho e, desse jeito, imortalizar-se culturalmente. Algo como o conceito de que “os símbolos vivem mais que os homens”, como indicou o comunicólogo alemão Harry Pross.

Não é à toa, aliás, que continuamos falando e estudando a obra e pessoas que morreram há muito tempo — por exemplo filósofos gregos. Artistas, cientistas, escritores que há muito se foram ainda permanecem “vivos” no âmbito da cultura e da informação. De forma parecida isso também acontece com celebridades, as quais tiveram sua existência e atuação ostensivamente reforçados pela mídia. Sempre presente na vida das pessoas a partir de notícias, fotos e vídeos, celebridades acabam se tornando imagens, como indica Christoph Wulf em seu artigo A criação mimética e a circulação de emoções: um estudo de caso, também inserido em Emoção e Imaginação. Lá ele discorre sobre o funeral televisionado de Michael Jackson e como as pessoas se emocionaram e também não queriam acreditar que o artista estivesse morto (assim como quando Elvis morreu e criou-se o bordão “Elvis não morreu”).

No entanto, especificamente no caso de Michael Jackson, Wulf indica que a cerimônia fúnebre e toda a encenação ocorrida durante esse evento veio a funcionar como “uma tentativa dos vivos de fazer com que o falecido continue vivendo pelo menos por algumas horas e para se certificar em um ritual comum de que nós continuamos vivos” (Wulf, 2014, p.207). E Michael segue presente, da mesma maneira, em forma de imagem nos dias atuais — seja como holograma ou então como memória auditiva em publicidades tais qual a do celular Sony Xperia Z2.

De forma semelhante, esse processo também ocorreu com a Princesa Diana, que ganhou um filme biográfico em 2013, protagonizado por Naomi Watts. A obra fixa-se principalmente em como a cobertura midiática sufocava a personagem mesmo depois de Diana ter se separado e deixado de ser parte da nobreza britânica — ou seja, havia, de certo modo, deixado de ser celebridade. Mas os paparazzi não pensavam dessa maneira e a importunavam, perseguindo-a e não a dando o “direito ao esquecimento”. Nesse sentido, a mídia ou a cultura midiática pode se concentrar em práticas muitas vezes superficiais, como visto em tablóides, na busca de reforçar informações muitas vezes irrelevantes (vide manchetes e notícias do G1) mas que, de qualquer maneira, não deixa de ser consumidas por muitas pessoas — ou esses veículos e formato não persistiriam até hoje.

À esquerda, desfile da Alexander McQueen em 2007, ainda com McQueen como designer. À direita, desfile em 2010, sob o comando de Sarah Burton

Na moda, esse processo também se dá de alguma maneira, uma vez que grifes mantêm os nomes de seus designers mesmo depois de sua morte e procuram seguir o legado. Isso aconteceu quando o designer Alexander McQueen faleceu e Sarah Burton passou a liderar a marca que, no entanto, continuou com o nome do criador. Em uma entrevista à Vogue, em 2010, Burton mencionou que sua primeira coleção, feminina, iria levar o espírito e inspirar-se em McQueen, mas que ela daria os toques femininos que ele, como homem, não possuía. E é mesmo possível verificar essa aproximação nos primeiros momentos de Burton à frente da grife, mas conforme o tempo é possível perceber que ela realmente se afastou um pouco da estética original de McQueen, não chegando a ser tão conceitual ou mesmo criar peças tão fortes quanto às do designer original.

Portanto, a cultura segue como um ambiente de registros de informações que serão passados adiante ao longo da história, seja a partir de práticas ou de, literalmente, acesso às informações. Foi o que imaginou Vannevar Bush ao criar o projeto MEMEX, que desde seu nome já faz referência à memória (memory extension ou ainda memory index). Isto é, Bush propunha a criação de uma máquina na qual as pessoas poderiam acessar de maneira rápida e flexível todas os registros escritos, imagéticos, comunicacionais etc. Essa ideia ajudou a moldar as configurações dos computadores e dos hyperlinks. Mais tarde, isso seria aprimorado por Ted Nelson em seu projeto Xanadu, que foi assim nomeado a partir de um poema de Coleridge que fala sobre um lugar na memória literária no qual nada é esquecido.

Dessa forma, entendemos que há uma confiança na máquina como uma mídia de registro de informações e de acesso dinâmico a estas, assim desdobrando-se no funcionamento do computador, da Internet e, por consequência, as enciclopédias colaborativas (Wiki). Porém, alguns estudiosos com o alemão Dietmar Kamper apontam para a insegurança também presente mesmo nessas mídias, em seu artigo As máquinas são tão mortais como as pessoas. Quer dizer, apesar de ser possível restaurar ou conservar um quadro, eles também estão sujeitos à deterioração da mesma maneira que máquinas, cada vez mais obsoletas conforme a passagem do tempo.

No entanto, é muito mais fácil de salvar essas informações, em âmbito digital, ou até mesmo restaurar objetos que estender uma vida humana. Esse é o projeto do pensamento transumanista: buscar a sobrevida humana seja por meio da transferência mental (a tradução da consciência em informação processável em computadores) ou ainda a eliminação do envelhecimento, como busca Aubrey de Grey.

Portanto, concluímos, principalmente a partir de Bystrina, que a cultura humana e suas criações, seus textos, funcionam como uma forma de tentar superar a assimetria da morte e de dar sentido à vida. Todos esses desdobramentos, sejam no âmbito da arte, dos rituais funerários, da mitologia, da mídia e mesmo o transumanismo seguem como textos de cultura que invariavelmente vão “brincando” com esse medo existencial.

Referências

BELTING, Hans. Antropología de la imagen. Buenos Aires: Katz, 2007 BYSTRINA, Ivan. Tópicos de Semiótica da Cultura. São Paulo: Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 1995
BAITELLO Jr, Norval; WULF, Christoph (org.). Emoção e imaginação. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2014
FLUSSER, Vilém. Bodenlos. São Paulo: Annablume, 2011
KAMPER, Dietmar.. As máquinas são tão mortais como as pessoas. Uma tentativa de excluir o telemático do pensamento. s/d. Disponível em <http://www.eca.usp.br/nucleos/filocom/traducao9.html>
MICHAUD, Philippe-Alain. Aby Warburg and the Image in Motion. Nova Iorque: Zone Books, 2004
MORIN, Edgar. O Homem e a Morte. Portugal: Publicações Europa-América, 1970
___. O enigma do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1979

* Esse artigo é referente a uma aula-teste que apresentada na Esamc, em Sorocaba.

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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