Moda e (sub)cultura: Os simbolismos e a trivialização da caveira

Já faz pelo menos um ano que percebemos nas lojas, tanto no Brasil, quanto no exterior, uma popularização da estética dark e de motivos que antes eram reservados às subculturas gótica e punk, por exemplo. Tachas, spikes, caveiras, cruzes e listras têm se multiplicado em roupas, acessórios e calçados que saem dos nichos e mesmo das passarelas de alta costura, onde muitas vezes os conceitos falam mais alto que a usabilidade, para se tornarem imagem trivial na paisagem urbana. Isto é, o que há poucos anos poderia ser considerado feio ou subversivo, hoje é um adorno fashion e chega mesmo a atrair o gosto do público que outrora se interessaria por motivos mais delicados do que um crânio humano — mesmo que este apareça sorridente e com um lacinho a enfeitá-lo!

Pensando nisso, resolvi escrever um pequeno artigo, que conta com uma entrevista com a loja Miniminou, que desde 2010 vem apostando nessa estética e que hoje se defronta de um ponto de vista mercadológico com a questão que acabei de mencionar.

Pensando menos no fato de que garotas que ouvem outros estilos musicais além de rock e metal estejam usando spikes, caveiras e afins (assim como rolou uma polêmica com a funkeira Anitta estar usando camisetas de bandas de metal e coisas do tipo), queria falar mais sobre a adequação de motivos agressivos como estes, no caso, a caveira em específico, a uma estética mais amena. Um exemplo é essa foto acima, em que um colar de caveiras com cruzes foi combinado à uma camisa de chiffon cor de rosa. É o que algumas subculturas como a pastel goth e soft grunge têm feito e é o que as identifica como tal.

Para entender um pouco mais sobre o que é subcultura, vou usar como referência o livro Visões Perigosas: Uma Arque-Genealogia do Cyberpunk (Editora Sulina, 2006), escrito pela amiga e leitora fierce Adriana Amaral. Nessa obra, ela analisa subculturas como aquelas ligadas ao gênero literário cyberpunk e, dessa forma, obviamente acaba explicando sobre a subcultura punk e sobre a atitude da mesma, para depois comentar que, na década de 1990, uma corrente teórica da Escola de Birmigham retrabalhou o conceito de subcultura para pensar na ideia de pós-subculturas. Estas estariam muito mais ligadas “à identificação e ao estilo do que com um caráter ideológico e de resistência que era visto nas análises do final dos anos 70 e década de 80, particularmente no caso da cena punk, que foi a primeira subcultura juvenil reconhecida por ter uma importância ideológica, além de uma dimensão estética e, por isso, de certa forma ‘legitimada’ pela comunidade acadêmica” (p.140).

Tendo tudo isso dito, quero dizer que não precisamos ficar tão incomodados assim com o fato de que “ah, você traiu o movimento”, porque, na realidade, certas subculturas, especialmente aquelas que sucederam a punk, não nasceram exatamente com uma ideologia, mas a partir de uma identificação estética que foi, justamente, responsável pela criação desse laço afetivo visual — e, portanto, da formação de um grupo, de uma cultura. Fora que, depois que você fica velho, você começa a simplesmente pensar como o Murtaugh: “I’m too old for this shit”. ☺

E… Opte sempre por pensar pelo lado positivo. Agora que isso tudo está “na moda”, fica muito mais fácil de achar coisas que são do seu gosto e por um preço bem mais acessível também. Isis Matsusaki, da Miniminou, conta que de 2010 pra cá, quando ela e sua irmã Bárbara começaram a loja no Mercado Mundo Mix e depois via online, era quase impossível achar produtos com caveiras. “Nesses três anos, isso mudou muito. Quase qualquer marca que antes nem imaginava em vender produtos com esse tema passou a fazê-lo. Então, a Miniminou postou em outras coisas, sem, no entanto, deixar de oferecer o que o nosso público gosta: cruzes, animais, spikes”, ela conta.

E já que esses são temas que têm agradado tão largo público, a Miniminou está se adequando para atender às várias subculturas. Isis aposta no estilo pessoal e se volta para as clientes que gostam de uma estética mais gótica, enquanto Bárbara investe na pesquisa e nota que as compradoras vão desde um estilo mais pin up a gothic lolita, soft grunge ou até mesmo punk. “A proposta da Miniminou continua a mesma, mas os produtos que oferecemos se encaixam para várias outras subculturas”, confirma Isis. Contudo, a pergunta que ainda fica é: como todas essas subculturas, tão distintas entre si, ainda conseguem manter esses interesses em comum?

Além de ter como possível intersecção o gosto musical pelo rock, seja o dos anos 60, J-Rock a la Moi Dix Mois/Malice Mizer, Nirvana ou Sex Pistols, a resposta mais fácil seria dizer que essa “coincidência” acontece porque a moda tem ditado tais preferências. Mas não quero me apoiar nessa possibilidade e sim no fato de que, sim, a moda tem a tendência nostálgica de trazer como “novidade” aquilo que foi usado em décadas anteriores, especialmente o que foi utilizado anteriormente por pequenos nichos — isto é, as subculturas. Quando fui fazer minha entrevista pro meu TCC com o vocalista da banda Nachtmahr, ele comentou que hoje em dia a Lady Gaga não seria possível de “dar certo” se não tivéssemos, no passado, pessoas como Siouxsie Sioux, por exemplo. Gaga trouxe elementos dos anos 80 como novidades extremas e fashionistas quando, no passado, eram motivos subculturais e reservados a pessoas como, por exemplo, a vocalista da banda de post-punk Siouxsie and the Banshees ou então artistas como Nina Hagen. A moda reinventa e revende algo que, no passado, era agressivo, subversivo e feio para o mainstream e, de repente, sem explicação, se torna lindo e fashionista.

Mas, ainda assim, tem gente que continua achando a Lady Gaga exagerada demais etc etc… Sites continuam fazendo lista dos piores e mais exagerados cabelos que ela usou e coisas nesse sentido. Ou seja, nem tudo ainda é totalmente aceito. No entanto, ela ainda é uma artista pop, está no top das listas, é uma celebridade mainstream. E nem por isso as pessoas saem por aí usando vestido de carne heheh… mas certos acessórios que ela usou têm tido uma recepção bem melhor, eu acredito. Já vemos no mercado brasileiro a adequação de sapatos que, à boca popular, são chamados “do tipo Lady Gaga”. A marca Di Cristalli, por exemplo, tem apostado em Litas modificados e em sapatos de salto diferente.

Se as pessoas têm gostado mesmo assim? Acho que sim. O que tenho reparado é que várias marcas comuns e de fácil acesso têm apostado em spikes, rebites e afins, e muitas pessoas têm gostado, só que é preciso ter bom senso. Já vi vários perfis de redes sociais de marcas de sapatos, por exemplo, postando umas coisas bizarras com cruzes e rebites e que ninguém tinha gostado. Não porque era exagerado, porque eram spikes ou esse tipo de coisa… mas porque era feio mesmo. Nem todas as grifes estão preparadas para se adequar à essa estética e, por isso, acabam exagerando demais nos elementos ou se inspiram bastante em coisas lá de fora… desde lojas de departamento tipo Forever 21 ou lojas online tipo Nasty Gals ou então marcas renomadas tipo Louboutin, Jeffrey Campbell e por aí vai. Quem conhece, sabe. E o caso aqui não é tanto o plágio, mas o despreparo para lidar com a questão da subcultura. Estamos quase chegando a um ponto em que não se quer mais lidar com as pessoas e uma cultura, um estilo de vida, mas simplesmente vender e enfiar a caveira, o spike e a cruz onde quer que seja, nem que não faça mais sentido:

Porém, Isis, criadora da loja Miniminou, não acha isso necessariamente ruim: “Andam colocando spikes em qualquer coisa, né? E, realmente, hoje você encontra qualquer pessoa usando algo com caveira. Eu ainda acho algo positivo”. Como comerciante, ela vê o lado bom da situação, já que os fornecedores que três anos atrás sequer pensavam em produzir algo com estampa de caveira hoje já têm o motivo à pronta entrega. “Acredito que o que ainda vale é o diferencial de cada produto. Procuramos sempre inovar, pois realmente as clientes não querem o que todo mundo tem ou o que se encontra fácil, em qualquer lugar”, diz. E não é a toa, não é mesmo? Afinal, esses exemplos que eu coloquei acima, são os mais triviais, os que encontramos em lojas de departamento. No caso da Miniminou, como loja menor e especializada, com foco em determinado estilo, é natural que se encontrem opções melhor direcionadas.

Então fiquei pensando… por que será que agora, em 2013, final de 2012, essa moda de caveiras, tachas e cruzes foi dar tão certo? Perguntei isso para a Isis, já que ela trabalha tanto com essa temática. Mesmo porque, se formos levar em consideração que o símbolo da caveira está muito mais para o memento mori, isto é, “lembre-se de que um dia irá morrer”, que é uma mensagem mórbida, do que para algo alegre ou que sirva de adorno e de beleza aos padrões. “Essa situação me faz pensar na febre das Monster High. Quando que meninas iriam querer bonecas que são filhas de monstros? Ainda não sei se isso é reflexo das mães que nasceram na década de 80 e não vêem problema em caveiras ou se é algo atual, que realmente caveira não remete tanto assim à morte”, confessa a administradora da Miniminou.

Ela, que em entrevista passada comentou que acha caveiras simpáticas e que parecem sorridentes, percebeu que, de uns anos para cá, este símbolo ganhou um novo sentido: “É como se fosse um coração ou uma estrela. Você encontra em diversos artigos”. Por que será? Vamos por partes.

Os simbolismos da caveira

O significado mais comum dado à imagem da caveira é, obviamente, àquele que se refere à morte. No entanto, historicamente, essa imagem foi se modificando em sentido conforme artistas e demais pessoas foram intervindo no motivo do crânio. Este, aliás, é muito forte para nós. É dito até mesmo que seres humanos podem frequentemente reconhecer um crânio ainda que visto apenas parcialmente, já que existe uma parte do cérebro que é responsável pelo reconhecimento de rostos. Por causa disso, é difícil para a mente humana separar da imagem da caveira um rosto conhecido e, também por esta razão, é que ela segue como um símbolo da morte — seja a passada, daquele que já se foi, ou da futura, daquele que se faz a associação ou de si mesmo.

Apesar de crânios suscitarem certas imagens malignas ou até mesmo de perigo, sendo utilizadas em bandeiras de navios piratas ou de frascos de veneno, antigos povos chegaram a moldá-los em cristal e dar a este objeto justamente o significado oposto ao que normalmente conhecemos: davam-lhe o sentido da vida, uma homenagem à humanidade e a personificação da consciência.

Com Shakespeare, na sua obra Hamlet, vemos a caveira aparecer numa roupagem um tanto melancólica enquanto o príncipe segura o crânio de Yorick durante a declamação de seu solilóquio irônico e amargurado. Este inspirava as obras de arte medievais intituladas “Vanitas Vanitatum”, as quais traziam crânios como lembrança da transitoriedade da vida terrena. E para passar essa mensagem, os artistas acabavam incorporando elementos do mundo intelectual, como globos terrestres e livros, e de “vita voluptaria”, como instrumentos musicais e fumo; já as velas e ampulhetas tinham o sentido da transcendência da existência humana. Além disso, alguns pintores também escolhiam citações para serem acrescentadas aos quadros, as quais dariam o toque certo às cenas que retratavam. Uma das favoritas vinha da Bíblia, de Eclesiastes, 1: “Vaidade das vaidades; tudo é vaidade”.

Já na Inglaterra elisabetana (1558–1603), o crânio era normalmente representado sem a mandíbula inferior e simbolizava alcoviteiras, libertinos e prostitutas. O termo “Deaths-Head” era um apelido para essas pessoas e várias delas usavam anéis com caveiras pela metade para poder demarcar suas posições, fosse profissional ou socialmente. As jóias originais eram feitas de prata, com uma decoração de caveira não muito maior do que o resto da peça, de modo que o desenho pudesse ser escondido, quando a pessoa estivesse acompanhada de alguém que não gostaria de ofender, ou que pudesse mostrar àqueles que tivesse interesse em específico.

E essa marginalidade continuava com os piratas que, ao adicionarem um crânio à bandeira de seus navios, passavam a imagem da mortalidade de suas embarcações e tentavam, dessa forma, intimidar seus oponentes ou até mesmo desafiar a morte ao usá-la como próprio símbolo. Este, aliás, passou a ser uma identificação do grupo e, com isso, eles se formavam em uma unidade subjetiva por conta do signo da caveira que, afinal, comunicava a morte, a violência e a experiência daqueles homens do mar. Da mesma forma, a caveira era usada como um troféu e como um alerta no cinto do rei lombardo Alboin que, após vencer seu inimigo, ainda bebia do sangue da caveira do oponente. Depois disso, a ossatura era deixada na cidade ou então era destruída no chamado Portal dos Traidores.

O símbolo da serpente penetrando pelas orbes da caveira é uma imagem familiar e que sobrevive na subcultura gótica. O animal, no caso, é um deus ctônico (subterrâneo) do conhecimento e da imortalidade que é capaz de trocar a própria pele. Guardião da árvore no jardim das Hespérides, e mais tarde conhecido como guardião da árvore no jardim do Éden, este deus-serpente aparece enrolado à caveira e sempre no espaço reservado aos olhos. Isto porque o conhecimento persistiria em estar além da morte, como o emblema diz, e é a serpente quem tem o segredo.

Mas na cultura mexicana, temos toda uma reviravolta nesse sentido macabro dado à caveira pelos povos europeus. Apesar da alegoria medieval da Dança Macabra, a qual tem como mote “não importa em que estágio da vida você está, a Dança da Morte une a todos”, ser uma espécie de brincadeira bem humorada com a imagem da caveira e o assunto da finitude de vida, é no país latino-americano que vamos ver as caveiras ganhando cores fortes e alegres. Já na época pré-colombiana, astecas e outras tribos mexicanas tinham o costume de venerar caveiras durante as cerimônias do dia dos mortos, dando origem às famosas festas de Día de los Muertos.

A tradição do dia dos mortos mexicana não é de prestar luto com tristeza e pesar, mas de construir altares para honrar os mortos com caveiras feitas de açúcar, adornadas com cravos e circundadas por comidas e bebidas que agradariam aqueles que partiram. Apesar de os mexicanos também entenderem a morte como algo triste, este povo enfrenta o fato como “libertação final” e, por isso, trata-se de motivo para comemorar, dando às caveiras adornos coloridos e alegres que tragam não o mau agouro, mas uma boa sorte nessa transição derradeira — aliás, é conhecido até mesmo que apostadores usam caveiras como símbolo de “azar reverso”, dos quais gatos pretos também fazem parte heheh. Alguns mexicanos ainda têm o costume de escrever pequenos poemas, os chamados calaveras (caveiras), que fazem piada com os epitáfios dos amigos falecidos ao descreverem seus hábitos e atitudes com anedotas engraçadas. Isso começou no século 18 ou 19 e, mais tarde, jornais passaram a dedicar calaveras a figuras públicas com desenhos de esqueletos no estilo de ilustradores como José Guadalupe Posada, que inclusive foi um dos responsáveis por criar um novo sentido à figura do crânio, tirando-lhe um pouco da mensagem de “memento mori” e lhe emprestando o sentido de “Carpe diem” ao pôr uma coroa de rosas sobre sua cabeça e criar a personagem Catrina, bastante celebrada no Dia de los Muertos mexicano. Ela, no caso, é uma paródia de uma versão feminina do Dandy europeu do século 20 e serviu ao artista como uma sátira aos mexicanos nativos que Posada acreditava estarem abraçando tais costumes estrangeiros e aristocráticos.

Então, de certa forma, sim, caveiras podem ser sorridentes e podem ser divertidas. Eu tive um professor no mestrado que costumava elogiar o poder subversivo do humor. E eu acho sensacional a ideia também. Vejo as imagens do Día de los Muertos que, aliás, também se tornou uma tendência fashion com as maquiagens, das quais eu até já falei aqui no blog, e esse sentido passa muito bem quando a gente ouve as peças que compuseram para interpretar a Dança Macabra. Ouçam essa, por exemplo, de Camille Saint-Saëns:

Onde eu quero chegar com isso? Bom, que talvez seja mais normal do que imaginemos achar caveiras fofinhas e divertidas e que essa trivialização da figura além dos visuais obscuros seja bem mais antiga e bem menos inacreditável do que pensávamos. E depois de McQueen, bem, não tem como segurar heheh… É claro que ainda é estranho você no alto dos seus 20 e tantos anos, usando seus coturnos e jaqueta de couro escutar uma garotinha dizendo: “Mãe, eu amo caveiras! Elas são tão fofinhas” (true story), mas hahaha… a vida é assim. Talvez essa garotinha não faça nem idéia do que é o dia dos mortos no México ou o que é a Dança Macabra, mas a cultura é assim mesmo… é quase que por osmose ou, em termos mais pomposos, tá aí no inconsciente coletivo. Um dia você olha pro crânio e lembra que não tem jeito, vai morrer mesmo, outro você dá risada e sai dançando no desfile de dia dos mortos… ☺

Originally published at www.fiercekrieg.com.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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