Hitler, por Gottfried Helnwein

Depois de ter pintado o retrato de Hitler com o próprio sangue durante uma aula de nu artístico na Höhere Bundes-Graphische Lehr- und Versuchsanstalt de Viena, e portanto sendo expulso da instituição, Helnwein ainda fez outros retratos do Führer durante os anos 70. Isso chegou a chamar a atenção de várias pessoas, desde vítimas de campos de concentração a oficiais da SS e neo-nazistas que haviam ouvido falar das pinturas e foram visitar seu ateliê: “Ouvimos falar que você tem uma pintura do Führer. Podemos entrar?”. Houve uma ocasião em que uma pessoa também comprou um retrato do Hitler e trocou por um carro, um Chevrolet.

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Sem título (1988), aquarela sobre papel cartão, 42cm x 60cm

Há ainda há possibilidade de na pintura Epiphany I (Adoration of the Magi), de 1996, que Helnwein tenha usado como referência para a pintura do bebê a feição de Hitler. Autores como Julia Pascal defendem essa ideia, como no texto Nazi Dreaming.

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“Madonna e a criança são circundadas por cinco respeitáveis oficiais da Waffen SS, palpavelmente em admiração pela idealizada Virgem loira e kitsch. O bebê Cristo, que se apóia no colo de Maria, encara desafiadoramente para fora da tela. O bebê Jesus de Helnwein é Adolf Hitler”

Mas o que vem à tona como elemento de estranheza nesse novo quadro do Helnwein é que Hitler sorri, de forma até simpática, para um Mickey em corpo de garota. Em primeiro lugar, deve-se levar em conta que Helnwein é simpatizante da cultura pop americana, especialmente de Walt Disney ou da criação de Carl Banks, o Pato Donald (o homem que mudou sua vida). Mas Mickey já apareceu tantas outras vezes na obra de Helnwein, como em Midnight Mickey (2001), Mouse VI (2006), Annunciation (Mouse 12) (2010) e Red Mickey (s.d.). E ele, mais do que Donald, é um resumo, um símbolo que sintetiza a Disney e talvez a cultura pop americana, assim como escreveu o artista mexicano Diego Rivera, em 1931: “E a estética do dia [futuro] irá entender que o Mickey Mouse era um dos heróis genuínos da Arte Americana na primeira metade do século XX” (apud CRAWFORD). E na mesma década de 30, o compositor americano Cole Porter usou o mesmo personagem, na canção You’re the Tops, colocando o rato ao mesmo nível de ícones culturais como Mona Lisa e o Coliseu. “Referências ao Mickey eram facilmente reconhecíveis na cultura popular por conta da grande exposição nos desenhos, merchandising e propagandas” (CRAWFORD).

Então, até mesmo Hitler estaria encantado por esse personagem tão carismático, da mesma forma que Helnwein, quando criança, se rendeu ao estilo rabugento e às trapalhadas do Pato Donald? Por que? Talvez porque a cultura pop seja um poder suave irresistível e os Estados Unidos eram (ou talvez ainda sejam) uma máquina de national cool.

É impossível medir quão legal é uma nação. National cool é um tipo de “poder suave” — um termo que o decano de Harvard Joseph S. Nye Jr. cunhou mais de uma década atrás para explicar de maneiras não tradicionais como um país pode influenciar as vontades de outros países ou seus valores públicos. E o poder suave não se quantifica nitidamente. Quanto da hegemonia americana moderna se deu por conta do grande terreno ideológico de sua democracia, por exemplo, por quanto de suas grandes franquias corporativistas, de Hollywood, do rock e do jeans, ou de sua capacidade de fascinar e também de intimidar? National cool é uma ideia, um lembrete de tendências comerciais e produtos, e um dom de um país em desová-los pode servir para fins políticos e econômicos. Como Nye argumentou nessa revista mais de uma década atrás, “Há um elemento de trivialidade e mania no comportamento popular, mas é também verdade que um país que está montado em canais populares de comunicação tem mais oportunidades de enviar suas mensagens e de afetar as preferências dos outros (MCGRAY, 2002).

São algumas possibilidades de interpretação, mesmo porque há nos comentários da foto postada no Facebook algumas pessoas que reinividicaram a relação de Disney com o nazismo. Mas quando entrevistei Helnwein e perguntei mesmo sobre a questão comercial da Disney, isto é, que além de as animações e quadrinhos serem arte, elas também são produtos e fazem parte de uma lógica capitalista, ele se recusou a pensar dessa forma e me disse: “Acho que Disney fez muito dinheiro, mas ele o usou para produzir arte. Ele foi um dos maiores gênios que já existiu”. Em outra oportunidade, Helnwein também comentou que Disney foi “sem dúvida o grande gênio artístico do século XX — um Leonardo da Vinci reencarnado, que voltou mais maduro e forte para criar a mais imensa obra de todos os tempos. Seu império estético mudou a face desse planeta” (HELNWEIN, 1989)… então fica a dúvida se realmente a intenção é essa. Edit: Esse novo quadro é bem parecido com outro Sem título, divulgado no ano passado, em seu deviantArt:

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Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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