Black & Goth. Negros e a subcultura gótica

Image for post
Image for post

Uma vez alguém da minha timeline no Facebook perguntou por que é raro ver modelos negras com um estilo mais gótico e por que a palidez é tão elogiada e considerada tão importante dentro do estilo. No momento, num rápido raciocínio, respondi que talvez tivesse algo a ver com a origem da subcultura, isto é, européia e, portanto, branca, mas fiz questão de mostrar modelos negras que adotam um estilo dark — porque sim, é óbvio, elas existem! Mas já que tenho em mãos uma ferramenta como um blog, por que não fazer um post sobre o assunto? Ainda mais quando é um blog voltado ao público brasileiro, isto é, leitores que vivem num país majoritariamente habitado por pessoas de etnias mistas e que normalmente têm a pele mais escura e bronzeada. Então, vamos ao post.

Em 2012, a Coilhouse publicou uma pequena matéria sobre o assunto, mencionando que durante os últimos 20 anos, até mesmo modelos de olhos castanhos são raras nas capas de revistas de beleza gótica, então imagina uma negra? Mas, por outro lado, há blogs e páginas dedicadas a negros que se identificam com a estética dark — no caso, o texto cita os perfis no tumblr Darque & Lovely, Black Sheep Goths e o DarkSKIN, que inclusive usa como URL “I was so goth, I was born black” ou “eu era tão gótico que nasci negro”. No Facebook, há a página Black/African American Goths, no qual a discussão parece ainda acontecer de vez em quando.

Muitas das imagens vêm com legendas de estímulo ou de defesa. Parece que mesmo em 2012 alguns ainda tentam mostrar que a cena gótica pertence somente aos brancos. Uma legenda no blog Darque & Lovely debaixo de uma imagem do tatuador Roni Zulu, diz: “esta é para o anônimo imbecil que disse que negros não deveriam ‘ser’ góticos ou punks. Em certos momentos da história, ser negro nos Estados Unidos era (e ainda pode ser) uma experiência pelo menos muito gótica”. (Coilhouse)

Image for post
Image for post

Mas… dá para dizer que a cena gótica é realmente agressiva contra os negros que fazem parte dela? Nessa matéria da Coilhouse, eles entrevistaram Shamika “Meeks” Baker, modelo, artista e escritora que mora em São Francisco, que disse que a única vez em que ela sofreu preconceito racial dentro de um ambiente subcultural foi num clube noturno da cidade:

“Um cara andou até mim e gritou: ‘Com licença!’ e me jogou para o lado. Eu, obviamente, agarrei seu casaco de pele e o sacudi para que me pedisse desculpas. Ele começou a berrar: ‘Tire suas mãos negras de cima de mim!’. Por sorte, depois de eu tê-lo abordado e dar as costas, vi que havia vários de meus amigos atrás de mim, prontos para me apoiar. [Apesar desse incidente], eu descobri que a cena gótica tem sido bem aberta e acolhedora”. (Coilhouse)

Image for post
Image for post

Já Numidas Prasarn, artista residente em Nova Iorque, diz que a fetichização da palidez na beleza é, em geral, mais uma questão de classe social do que estritamente relacionado às etnias. “A palidez do ‘ideal de beleza gótica’ vem desse senso de estranheza. Enquanto se tem o clichê mainstream da garota bronzeada, o contraste da palidez é usado como um significado do Outro que se põe em defesa. O problema é que esse é um microcosmo que não necessariamente carrega um senso de auto-consciência de que também está marginalizando outras pessoas”. Isto é, enquanto a palidez do gótico vai como uma forma de contracultura em resposta à popularidade das garotas loiras e bronzeadas do tipo Barbie girl, essa estética acaba dificultando a integração de outros indivíduos que sentem afinidade, porém podem sofrer algum tipo de rejeição. A escultora, designer de jóias e musicista Asha Beta, comenta que o ideal “tradicional” gótico, no qual o indivíduo é pálido e se veste com roupas pretas, nunca se aplicou à ela, porque sua conexão com a subcultura foi a atração pela música e pela atmosfera da cena. “Eu sempre senti que eu não era tida como atraente, bonita ou mesmo tão ‘gótica’ como as garotas que eram mais pálidas do que eu. Eu nunca atraí muitos pretendentes e eu fiquei em paz comigo mesma sobre nunca ser capaz de ficar próxima do ‘ideal de beleza gótica’, apesar de eu sentir dentro de mim que meu próprio jeito de ser ‘gótica’ era muito sincero e criativo e muito verdadeiro para o que ‘gótico’ quer dizer”, conta a artista. “Uma parte da cena que obviamente me deixou desconfortável foi a facção militar/nazista/ariana, apesar de eu entender que muitas dessas pessoas tinham isso como fetiche ou um tipo de obsessão pela história e não necessariamente algo baseado em racismo”.

Image for post
Image for post

Apesar de ser uma minoria dentro de outra minoria, o que torna as coisas ainda mais difíceis, Beta diz que mesmo assim se sente muito conectada à subcultura gótica e que foi a partir disso que ela entendeu como também a rejeição acontece na sociedade, como um todo. “Eu era solitária dentro da cena assim como eu era fora dela. Eu encontrei um consolo pessoal e uma saída criativa, mas nunca encontrei a comunidade que estava procurando. Estava muito feliz de finalmente ver que nossas subculturas estavam se espelhando na qualidade multicultural do nosso mundo, e tão contente de ver as gerações mais jovens das subculturas encontrando e criando comunidades que se conectariam e se ajudariam”, comenta a artista. Ela, aliás, vê como uma das mais fortes e mais positivas conexões entre sua origem étnica é que a estética gótica empresta muito da cultura asiática, do Oriente Médio, dos africanos, com o voodoo, assim como os egípcios, além dos haitianos e caribenhos.

Image for post
Image for post

Bem, e o que eu tenho a dizer é que tem uma moça do Tumblr que eu admiro demais, porque acho muito linda. A Khymeira vive sendo repostada por uns blogs que gostam de música industrial e cyberpunk, porque ela tem um estilo mais ou menos nesse sentido e foi ela quem eu apresentei pra essa amiga que comentou, no Facebook, sobre a raridade de modelos negras na cena gótica. Eu achei que ela era modelo ou qualquer coisa do tipo, mas parece mais que ela é só uma garota bem legal e estilosa mesmo hahaha…

Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post

Agora, uma modelo negra que trabalha com vários estilos alternativos é a Amanda Tea. Ela faz fotos em estilo lolita, punk, vitoriano, steampunk, cyber, indie, fetish… hahahha… ela é bem versátil MESMO! E não deixa de estar dentro da categoria das modelos alternativas de moda dark:

Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post

Já aqui, no Brasil, a marca Persephone Dark Clothes deu seu primeiro passo fazendo um editorial com a modelo Camila Moura, divulgando suas peças em veludo alemão, corsets e batas. Fiquei simplesmente passada em como ela é linda e como ficou maravilhosa nas fotos. Adorei. Dei um tapinha nas cores pra dar um clima a mais pra esse shoot que foi feito próximo ao Museu de Arte Contemporânea, aqui em Sorocaba.

Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post
Image for post

Se vocês gostaram de alguma das peças, é só entrar em contato com a marca através do Facebook e fazer sua encomenda. Espero que tenham curtido o post. Acrescentem mais conteúdo a ele deixando seus comentários sobre o assunto! E pra quem quiser ver mais, tem também esse post sobre mulheres negras fierce!
PS: Outra coisa que me surgiu na memória é que haviam dito que não existia música industrial negra… e aí me lembrei que existia essa coletânea noise de música africana, Extreme Music from Africa, de 1997, organizada por Susan Lawly. Bom, é barulhento mesmo, mas tem algumas coisas bem interessantes e vale a pena pelo menos pra dizer que, ó, existe SIM! ☺

Image for post
Image for post

01. Rorogwela — Death Lullaby
02. Lucien Monbuttou — Kpiele
03. Jonathan Azande — Long Pig
04. Electricity — Dunia Wanja Wa Fujo
05. Vicious Teengirl — Tutampiga
06. National Bird — Wakar Uwa Mugu
07. Petro Loa — No Rada No Rada
08. Godfrey J. Kola — Somalia!
09. Jonathan Azande — Opaque Misery
10. Lucien Monbuttou — A State Of Blood
11. Electricity — Indlela Yababi
12. Government Of Action — Dada Noir
13. Lucien Monbuttou — I Find The Enemy
14. The Mbuti Singers — Massacre Rite

Pra quem não tem o ouvido muito treinado pra ouvir noise como eu, essa primeira faixa que eu coloquei o link usa como sample a música Sweet Lullaby, da banda Deep Forest, que é uma espécie de ethno-techno bem gostosim super anos 90 heheh… o idioma em que ela é cantada é um dialeto chamado Baegu, que é falado nas Ilhas Salomão, um país no oceano Pacífico, na Melanésia.

Mas se é pra terminar o post falando de música e sem sair do assunto, apesar de não ser do gênero goth, é rock e é fierce: com vocês, Skunk Anansie! ❤

Originally published at www.fiercekrieg.com.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store