As vacas de Vilém Flusser

Ainda lendo Natural:mente (2011, Annablume), eu me deparei com um capítulo que, por um momento, achei não ter pé nem cabeça — aliás, muitos deles começam assim, com divagações malucas e que você tenta adivinhar onde o autor está tentando chegar. Um deles é “Vacas”. Flusser começa comparando o mamífero a máquinas eficientes que são capazes de transformar erva em leite, são máquinas reprodutíveis e, até aquele momento em que ele escrevia, sequer eram capazes de poluir o ambiente — mas hoje já ouvimos dizer que suas fezes contribuem com o aquecimento global por conta do gás metano eliminado.

Além disso, vacas são até simples de serem manejadas, não chegam a ser custosas (a não ser quando adoecem e aí precisam de um profissional do tipo veterinário). São versáteis e possibilitam até mesmo a geração de energia e servem de motor para veículos lentos. Estão disponíveis em diferentes modelos no mercado, do tipo vaca suíça, holandesa e inglesa, até os estereótipos mais baratos e “destinados aos povos subdesenvolvidos” (p.67) como as zebu e vacas centro-africanas. Mas não se trata bem de estética e sim um “modo de usar” da vaca, sendo possível até mesmo que essa característica se torne um jogo para seus criadores, que cruzam as raças e tornam a venda e a compra um processo lúdico — vide Canal do Boi.

Mas assim como quem lê Vampyroteuthis infernalis (2011, Annablume) e pensa que Flusser está falando do molusco per se, está novamente enganado que a vaca é só vaca em seu texto, como ele já anuncia no pequeno capítulo, facilitando nossa compreensão: “O inventor da vaca provocou autêntica revolução tecnológica, tanto em sentido funcional quanto estético, que abre horizontes para um novo ‘estar-no-mundo’ do homem do futuro” (p.67).

Do mesmo modo que a vaca é decolagem, é também perigo para Flusser. Outras máquinas virão a povoar a vivência humana, como já vêm fazendo desde a Revolução Industrial, e serão aos poucos substituídas por máquinas do tipo “vaca”. E essas máquinas são capazes de impor um novo ritmo vital e uma nova práxis ao homem, pedindo-lhe uma readaptação que, por consequência, gera uma “nova alienação individual e coletiva” (p.68).

“A fantasia pode prever não apenas dissolução das grandes cidades e formação de pequenos aglomerados em torno de vacas (a serem chamadas, por exemplo, ‘aldeias’), mas em consequência disto, também, a dissolução da estrutura básica da sociedade e sua substituição por outra apenas imaginável. No entanto, o pior não será isto” (p.68)

Se é possível reconhecer a tendência dos humanos em criar máquinas que “espelham” no homem, isto é, o tear como modelo do dedo humano, o telégrafo como modelo do nervo, também conseguimos vislumbrar que para o homem do século 18, a tecnologia era a vapor, enquanto no século 19 era química e no século 20 passa a ser cibernética. “Tal retroalimentação nefasta entre o homem e seus produtos é aspecto importante da alienação e autoalienação humana” (p.69). Quanto mais as máquinas atuais vão sendo substituídas por máquinas do tipo “vaca”, Flusser vê por consequência a equação e identificação “homem = vaca”.

“O homem pode não reconhecer na vaca o seu próprio projeto, pode esquecer que a vaca é resultado de sua própria manipulação da realidade em obediência a um modelo seu, e aceitar a vaca como algo de alguma forma ‘dado’ (por exemplo: pode aceitar a vaca como uma espécie de ‘animal’, portanto, parte da ‘natureza’). Em tal caso, a vaca assumirá autonomia ontológica e epistemológica, e virará, por assim dizer por trás das costas do homem, modelo do próprio homem” (p.69)

Por ser extremamente antropomórfica, uma vez que segue como referência o próprio homem (vide exemplo do tear e do telégrafo), é possível que a natureza maquínica da vaca seja muitas vezes encoberta e não haverá “explicações genéticas” que “provarão ser a vaca resultado de manipulação humana” (p.69) — vide Teste de Turing. Isso porque “o impacto da vaca se dará em nível existencial, no contato diário com ela. Em tal nível, todas as ‘explicações’ se tornaram irrelevantes (como são irrelevantes tais ‘explicações’ atualmente para os que têm contato diário com computadores)” (Idem).

“A mera presença cotidiana da vaca exercerá sua influência ‘vaquificante’. A fantasia se recusa a imaginar a consequência disso.

No entanto, é preciso enfrentar o perigo. A fantasia deve ser forçada. Revela a visão de uma humanidade que pastará e ruminará satisfeita e inconsciente, consumindo erva, na qual uma elite invisível de ‘pastores’ tem interesse investido, e produzindo o leite para tal elite. Tal humanidade será manipulada pela elite de maneira tão sutil e perfeita que se tomará por livre. Isto será possível graças à automaticidade do funcionamento da vaca. A liberdade ilusória encobrirá a manipulação ‘pastoril’ perfeitamente. A vida se resumirá às funções típicas da vaca: nascimento, consumo, ruminação, produção, lazer, reprodução e morte. Visão paradisíaca e terrificante. Quem sabe, ao contemplarmos a vaca, estamos contemplando o homem do futuro?” (p.70)

A fantasia que Flusser menciona certamente é a ficção científica, principalmente a de gênero distópico. E depois de ler esse parágrafo, não conseguia deixar de pensar em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e a “erva” Soma. O mais curioso é que, como já citei aqui em outro post, de outra natureza, há mesmo uma música de um compositor brasileiro que faz uma paródia sobre vacas e essa distopia: Zé Ramalho, com Admirável Gado Novo.

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber…

E ter que demonstrar sua coragem

À margem do que possa parecer

E ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer…

De mesmo modo, acredito que Flusser ainda toque no ponto da ficção científica (mesmo que estejamos, talvez, próximos de tornar realidade) dos autômatos, máquinas cibernéticas que emulam o homem também e a consequência da convivência com os mesmos, num nível existencial, sociológico, filosófico. Mas o autor vai além da máquina e pensa o homem como máquina, como gado, funcionário preso ao programa da vida de vaca. Mas, assim como em Filosofia da caixa preta (2011, Annablume), Flusser também sugere uma “filosofia da fotografia”, isto é, que é possível não cair nessa armadilha.

“O futuro é, no entanto, apenas virtualidade. Ainda é tempo de agirmos. O progresso não é automático, mas resultante de vontades e liberdades humanas. O progresso rumo à vaca pode ser ainda sustado. Não, por certo, ‘reacionariamente’. Não pela tentativa de negar as fantagens óbvias da vaca e a força da imaginação criativa que nela se manifesta. Mas pela tentativa de apropriar a vaca às verdadeiras necessidades e aos verdadeiros ideais humanos. A vaca é, sem dúvida, ameaça. Mas também desafio. Deve ser enfrentada” (p.70).

Portanto, diferente das tantas fantasias (ficções científicas) que têm transbordado nas telas e nas prateleiras, em que robôs são tanto achatados à amizade das leis de Asimov quanto à demonização dos neoluditas, Flusser pede para que pensamos nas possibilidades e nos riscos da “vaca” e não deixa de considerar a narrativa fantástica, a meu ver, como um local de pensamento sobre esses assuntos — ainda que não esteja contente com o que conhecia do gênero.

Ainda gostaria muito de ler o texto Science Fiction que Vilém Flusser escreveu e agora com a vinda da biblioteca dele para o Brasil, espero conseguir ter acesso a esse documento. Fiquei sabendo da existência a partir do livro O Explorador de Abismos, de Erick Felinto e Lúcia Santaella, no qual os autores abordam justamente Flusser, pós-humanismo e ficção científica. Lá, inclusive, os autores consideram que o cyberpunk estaria entre alguns dos gêneros mais interessante para essa reflexão, ao citar um trecho do livro A cultura da Mídia de Douglas Kellner:

“[o cyberpunk propõe] profundas questões filosóficas sobre a natureza da realidade, da subjetividade e do ser humano no mundo da tecnologia: o que é autenticamente humano quando se tornam idenfinidas as fronteiras entre humanidade e tecnologia? O que é identidade humana, se ela for programável? O que sobra nas noções de autenticidade e identidade numa implosão programada entre tecnologia e ser humano? O que é ‘realidade’, se ela é capaz de tanta simulação? De que modo a realidade está hoje sendo corroída, e quais são as consequências disso? Certamente, Gibson não responde a essas perguntas, mas pelo menos suas obras as formulam e nos obrigam a pensar sobre elas” (p.33)

Esperamos, então, que o cyberpunk e os próximos autores continuem pensando sobre isso. Eu sigo arriscando com as minhas noveletas REQU13M do gênero e procurarei estudar sobre esses assuntos no doutorado, inclusive, mas ainda aguardo filmes e livros alheios que tenham uma abordagem que cheguem a responder tais perguntas.

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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