Arnulf Rainer, Hermann Nitsch e Gottfried Helnwein

Arnulf Rainer e Hermann Nitsch são dois artistas austríacos interessantes que gostaria de apresentar a vocês e que, por acaso, têm uma obra que entra em contato com a de Gottfried Helnwein, assim como é observado no ensaio “Les Autoportraits de Gottfried Helnwein”, de Roland Recht:

Nós imediatamente vemos que o vienense Helnwein segue uma tradição que vem do século XVIII, do escultor Messerschmidt, cujos bustos caricaturais receberam longos comentários de um discípulo de Freud. Nós também vemos que seu trabalho entra em contato com o de Arnulf Rainer ou Nitsch, dois outros vienenses que retratam seus próprios corpos numa relação com o dano, a dor e a morte¹ (RECHT, 1988).

Arnulf Rainer

Pintor, gravurista e fotógrafo nascido em 8 de dezembro 1929, em Baden, na Áustria. Começou sua carreira de pintor como auto-didata em meados dos anos 1940, depois de ter deixado a escola. Teve seu primeiro contato com a arte contemporânea através de uma exposição do Conselho Britânico em 1947, no qual estavam inclusos trabalhos de Paul Nash, Francis Bacon, Stanley Spencer, Henry Moore e Edward Burra. Nesse período, produziu seus primeiros retratos, tais como Rainer Dying. Ao começar a estudar na Staatsgewerbeschule em Villach, de 1947 a 1949, passou a se interessar pelas teorias do Surrealismo. Ele teve praticamente nenhum treinamento acadêmico como artista, já que acabou deixando a Hochschule für Angewandte Kunst em Viena em 1949 um dia depois de sua primeira aula, por conta de uma discussão com um professor. Ele permaneceu um pouco mais de tempo na Akademie der Bildenden Künste em Viena, até 1950. De 1948 a 1951, ele produziu desenhos surrealistas de cenas subaquáticas e de formas místicas usando apenas lápis.

A partir de 1956, Rainer começou a se focar em teorias e práticas religiosas, demonstrando isso particularmente num grupo de pinturas com formas cruciformes, como Black Cross (1956). O interesse em estados emocionais extremos passa a ser evidente a partir de 1963, quando ele começou a coletar pinturas feitas por pessoas com distúrbios mentais e, em 1964, Rainer passou a experimentar drogas halucinógenas. A partir de 1968, ele começou a usar fotografias de suas mãos e ainda mais frequentemente passou a incluir rostos caricaturais como base de trabalhos que recebiam uma pintura sobre a imagem (como nas fotos acima). Sua preocupação com a variedade de expressões faciais e de linguagem corporal a partir de 1969 passa a simbolizar uma quebra de tabus contra o que é feio, absurdo ou instintivo.

Desde meados dos anos 1970, Rainer retrabalhou fotografias sobre vários assuntos, incluindo pedras (1974–5), cavernas (1975–7), mulheres )1977) e a obra de vários outros artistas, incluindo Gustave Doré, Leonardo da Vinci, Franz-Xavier Messerschmidt, Vincent van Gogh, Rembrandt van Rijn e Francisco de Goya. Ele também usou imagens de esculturas gregas, múmias, máscaras de morte e cadáveres. Seu retorno à imagem da cruz em uma série de pinturas atestou seu interesse na relação entre a vida e a morte, entre o físico e o espiritual, redenção e sacrifício. Tais temas também foram abordados em sua série Hiroshima, com 72 fotografias que receberam uma nova pintura por cima de suas imagens, as quais retratavam a cidade destruída após a bomba atômica de 1945.

Hermann Nitsch Nascido em Viena, em 29 de agosto de 1938, Nitsch estudou na Wiener Graphische Lehr-und-Versuchanstalt e é conhecido por suas pinturas cheias de respingos que, assim como suas performances, estabelecem um tema de violência representada por tons brilhantes de vermelho, marrons e cinzas pálidos que fazem remitência à mutilação orgânica. Nos anos 1950, Nitsch criou o Orgien Mysterien Theater (o qual pode ser traduzido literalmente como Teatro de Orgias e Mistérios” ou “O Teatro do Mistério Orgiástico”), no qual foram apresentadas cerca de 100 performances entre os anos de 1962 e 1998. Ele é conhecido como um artista do movimento Acionista Vienense, um grupo pequeno e violento que desenvolveu, nos anos 1960, pinturas abstratas na técnica conhecida como “gestualismo”.

O trabalho de Nitsch, que pode ser considerado tanto ritualista quanto existencial, chamou a atenção do público pela primeira vez no começo dos anos 1960, quando ele exibiu um cordeiro esfolado e mutilado. O animal, crucificado em uma parede coberta por panos brancos, teve suas entranhas removidas e exibidas abaixo, numa mesa branca suja de sangue e água quente. Essa instalação ainda acompanhava a trilha sonora composta pelo próprio Nitsch, a qual ele deu nome de “Geräuschmusik” (algo como Barulho da Música). As obras subsequentes incorporaram vários outros elementos similares, frequentemente combinando animais mutilados com frutas vermelhas, música, dança e participantes artivos. Nitsch sobrepôs os intestinos de animais mutilados com ícones como crucifixos, satirizando e questionando a ética e a moral da religião atávica e do sacrifício. Atualmente seu trabalho tem sido discutido num contexto sobre nossa cultura ser aficcionada pela violência vista nas notícias, no cinema e nos videogames. Como curiosidade, vale acrescentar que Nitsch fora repetidas vezes multado, julgado e mesmo condenado à prisão.

Tendo tudo isso exposto, as possíveis comparações a serem feitas entre a obra desses artistas e de Helnwein parecem bem mais evidentes.

Referências RECHT, Roland. Les Autoportraits de Gottfried Helnwein. Conservateur en Chef des Musées de Strasbourg. 1988. Disponível em: <http://www.helnwein.com/kuenstler/biografie/artikel_907.html> SEVERIN, Ingrid. Arnulf Rainer. Grove Art Online. 2009. Disponível em: <http://www.moma.org/collection/artist.php?artist_id=4792> VOGT, Jonas; NUSSBAUMER, Alexander. Hermann Nitsch. 2011. Disponível em: <http://www.vice.com/read/hermann-nitsch-595-v17n11> WIKIPEDIA. Hermann Nitsch. <http://en.wikipedia.org/wiki/Hermann_Nitsch> ¹ On voit aussitôt ce que Helnwein le Viennois doit à toute une tradition remontant au XVIII° siècle, au sculpteur Messerschmidt dont les bustes grimaçants ont fait l’objet d’un long commentaire par un disciple de Freud. On voit aussi ce que ce travail a de commun avec ceux d’Arnulf Rainer ou de Nitsch, deux autres Viennois qui mettent en scène leur propre corps dans son rapport à la blessure, à la douleur et à la mort.

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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