Aonde quer chegar o teatro de horror cartesiano de Black Mirror?

Apostando ainda mais no estímulo ao medo instintivo, nova temporada da série traz uma visão antiquada de consciência já explorada pela ficção científica, porém com um twist apocalíptico.

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AVISO: O texto contém spoilers.

Várias pessoas vieram conversar comigo sobre Black Mirror e queriam saber minha opinião, a qual eu expressei publicamente no Twitter de forma até emotiva demais, já que minha reação a alguns episódios, mais do que na temporada passada, foi bastante negativa.

Mas, ainda assim, estava difícil de conseguir organizar na minha cabeça o motivo pelo qual eu não havia gostado dos novos episódios lançados em dezembro de 2017. Ou pior, não conseguia entender como eles sequer me davam um insight sobre o que poderiam estar querendo comunicar além do óbvio e da já estabelecida fórmula narrativa que fez com que a série se tornasse emblemática ao trazer narrativas distópicas envolvendo tecnologias avançadas em um futuro não tão distante.

Um elemento que me incomodou, no entanto, foi o excesso de autorreferências que iam além dos Easter Eggs. Mais do que uma brincadeira para que a audiência se sinta desafiada a caçar referências, alguns trechos beiravam ao autoelogio e à presunção. Em USS Callister, por exemplo, o protagonista diz que tem as fitas de sua série de ficção científica preferida, mas que sabe que pode assistir ao conteúdo a qualquer momento no Netflix. Independentemente do ano em que a história se passa, seja ele 2020 ou 2040, parece desnecessário e até mesmo tosco incluir a marca da própria plataforma na qual se disponibiliza a série — será mesmo que ela sobreviverá ao tempo? Fora isso, o recurso me pareceu tão antiquado quanto ter os atores conversando com o “telespectador”, olhando para a câmera.

Mas isso, de longe, não era motivo o suficiente para justificar o desgosto pelos novos episódios. Foi aí que encontrei essa resenha escrita por Charles Mudede para o site The Stranger, na qual ele explica de forma bastante sucinta qual é o verdadeiro problema com essa última temporada de Black Mirror.

O problema é como a série resolveu se focar e apresentar a noção de consciência ao longo de seus episódios. A começar com USS Callister, Daly é capaz de fazer um clone virtual de seus colegas de trabalho ao escanear seu material genético — algo que parece plausível, considerando trabalhos como o da artista Heather Dewey-Hagborg. Contudo, conseguir trazer também todas as memórias dessas pessoas, das mais antigas até as mais recentes, pareceu um exagero que extrapola o gênero da ficção científica para se tornar mais próximo da fantasia. Mas, enfim, quem sabe?

A questão trazida por Mudede, contudo, é que se, nos anos 80, a ideia de consciência desmaterializada de René Descartes foi considerada uma “liberação” e uma forma de atingir o céu no ciberespaço tanto na ficção científica (cyberpunk, por exemplo) quanto entre os entusiastas da tecnologia (transhumanistas e tecnólogos), hoje a ciência já está mais voltada para a noção de consciência corporificada que, do ponto de vista filosófico, tem mais a ver com a obra de Baruch Spinoza do que de Descartes.

Em Black Museum, a personagem Carrie (Alexandra Roach) é transferida para a mente do marido após morrer e se transforma na personificação do argumento do homúnculo.

Por conta disso, Black Mirror falha ao entender a consciência como um “homúnculo”, uma substância que pode ser transferida de um corpo para o outro, seja ele humano ou um objeto — algo já explorado em temporadas passadas, como no episódio White Christmas ou mesmo no aclamado San Junipero. A série entende a consciência funcionando como uma espécie de ator em um teatro dentro da mente (que é o que exatamente vemos em Black Museum ao conhecermos a história do ursinho de pelúcia exposto no museu), algo que o cientista cognitivo e filósofo da ciência Daniel Dennett chama de Teatro Cartesiano.

Mudede contesta que, se, outrora, o filósofo francês popularizou essa noção descorporificada da consciência como uma forma de proteger as ciências naturais da Igreja, hoje essa ideia se encontra morta para a ciência, mas não para a ficção científica. A diferença é que, quando o cyberpunk imaginava a consciência como algo imaterial e que poderia ser baixado, assim como em um download, ou enviado, como um upload, para outro substrato, o gênero o fazia de forma utópica. O mesmo vale para os transhumanistas e entusiastas da transferência mental (mind uploading): se a consciência, portanto, não precisa de um corpo e pode ser transferida para outro substrato, então podemos nos libertar das limitações de nosso corpo biológico e ter nossa consciência, nosso self, transitando livremente no éter do ciberespaço, que ganhou um status de céu cristão — vide o livro The Pearly Gates of Cyberspace de Margaret Wertheim, por exemplo, ou o livro Mind Children de Hans Moravec.

Esses sentimentos, mesmo nos anos 80, como aponta Mudede, não eram nada novos, mas estavam conectados tanto a Descartes quanto ao Phaedo de Platão, obra que descreve as últimas horas de Sócrates.

“Antes de morrer, o pai da filosofia moderna sente que sua alma (mente, espírito) está sendo libertada das amarras do corpo biológico. O self é a produção biológica da comunidade humana. Mas a ficção científica de Black Mirror insiste naquilo que a ciência há muito descreditou: a consciência como um homúnculo, uma pequena pessoa em um assento.”

Desse modo, ao também considerar a consciência como “uma pequena pessoa sentando dentro do teatro da mente”, Black Mirror apenas tem como diferença ou “inovação” às narrativas do cyberpunk um olhar apocalíptico no qual retirar a consciência do próprio corpo pode ser, na verdade, pior do que tê-la corporificada. Isto porque, afinal, se seu homúnculo (seu mini-eu) for extraído, talvez até sem saber, pode acabar sendo explorado, atacado ou eletrocutado por toda a eternidade, como sugere a série.

“A ficção científica se aproxima do monismo do deus de Spinoza — como em Battestar Galactica (a série de 2004) — mas não do conceito de consciência do autor, que é a fonte de meu próprio entendimento: uma questão biológica processada no tempo e no espaço; algo que, como nas leis de imitação de Gabriel Tarde, atinge múltiplas direções e distâncias (a luz de uma estrela, a palavra saindo da minha boca), chega [a algum lugar], intersecciona e concentra. Acho que Alfred Whitehead chama essa concentração de “a satisfação”.” (Mudede)

Como escrevi nesse post anterior, outros filósofos e neurocientistas contemporâneos também contrariam essa noção cartesiana da consciência e passam a acreditar que o self não é mais do que uma construção sócio-cultural, uma ferramenta do ser humano para tentar lidar com o medo e consciência da própria morte. De acordo com o filósofo alemão Thomas Metzinger,

“Nós, seres humanos, temos um problema que nenhuma criatura anterior já teve. Temos esse novo modelo cognitivo do self e temos essa noção de que iremos morrer — todos morrem — e isso cria um enorme conflito em nosso modelo de self. Às vezes chamo isso de abismo ou fenda, uma profunda ferida existencial que nos foi dada por esse insight — todas minhas estruturas emocionais mais profundas me dizem que há algo que nunca irá acontecer, e meu modelo de self me diz que isso irá acontecer.”

Isto é, racionalmente, sabemos que iremos morrer e que não podemos escapar da morte, porém é o nosso self, nossas construções sócio-culturais do que é o eu e do sentido que damos às coisas (que, em última instância, não têm significado nenhum) é que vêm como um subterfúgio para lidarmos com a inevitabilidade de nossa finitude. Portanto, para além de não acreditar que um self existiria sem um corpo, Metzinger sequer acredita que ele exista para além de uma convenção, um símbolo, algo tão abstrato e subjetivo quanto uma metáfora.

“O self se torna uma plataforma para formas culturais de uma imortalidade simbólica, as diferentes maneiras que o ser humano lida com o medo da morte. A forma mais primitiva, simples e concreta é transformada em religião, como o Catolicismo, por exemplo, e, digamos, “Não é verdade, eu acredito em outra coisa”, e forma uma comunidade e reforça socialmente esse autoengano. Isso te conforta; te deixa mais saudável; é bom para lutar contra outros grupos de descrentes. Mas, ao longo do tempo, isso cria horríveis catástrofes militares, por exemplo. Há outras saídas melhores para isso, como, por exemplo, tentar escrever um livro que fará com que você sobreviva [em memória].”

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Seguindo a lógica de Metzinger, o self não existe e, portanto, sequer poderia ser transferido para outro substrato, como a pelúcia apresentada em Black Museum.

Novamente, o filósofo não acredita que seremos capazes de transferir nosso self para uma máquina — tanto por ele não existir quanto não poder ser extraído de sua matéria, de seu corpo. Conforme nossa existência se basearia na maneira como percebemos o mundo através dos nossos sentidos (olfato, audição etc), nossa consciência está intrinsecamente conectada ao nosso corpo como a interface de percepção. Nas palavras de Metzinger, “uma grande parte de nosso modelo humano de self está baseado no corpo, nas entranhas, nas percepções dos órgãos internos, no sentido vestibular”.

Todas essas concepções são extremamente complexas, não só a nível de dificuldade de entendimento quanto pela sofisticação que elas incluem. Afinal, como também levantado por Metzinger, se só conseguimos perceber o mundo a partir dos nossos sentidos, da interação das coisas com o nosso corpo, então por que quando, em realidade virtual, ou quando muito imersos em uma experiência audiovisual (videogames, filmes ou mesmo livros), sentimos assim como se nosso corpo fosse impactado?

Em entrevista para a Folha de S.Paulo, Yuval Noah Harari, autor dos livros Homo Deus e Sapiens, trouxe um insight que pareceu bem assertivo nesse caso:

Minha opinião é que a ideia de organismos como simples algoritmos tem sido bem-sucedida, especialmente na biotecnologia. Mas acho que existe aí uma grande lacuna nessa visão: a consciência, as experiências subjetivas. Não temos nenhum modelo científico bom para explicá-las, e é por isso que sou cético quanto a essa visão da vida ser realmente verdadeira. Pode ser que em 20 ou 30 anos tenhamos um modelo da consciência em termos de processamento de dados. Penso que podemos estar na posição em que a física estava no final do século 19, os físicos estavam convencidos de que realmente entendiam a realidade física e de que só restavam algumas coisas pequenas para resolver. Mas aí vieram revoluções tremendas com a teoria da relatividade e a mecânica quântica. Acho que o mesmo pode acontecer com a biologia no século 21. Só existem algumas coisinhas como a consciência que não podemos explicar e, bum, uma revolução acontece nas próximas décadas.

Talvez depois de resolvemos essa “coisinha” da consciência conseguiremos nos assegurar mais quando pensarmos em transferência mental, mas, por ora, tais hipóteses como a da consciência e do self como um homúnculo ou uma substância a ser transferida para outro substrato não parece ser a melhor aceita em círculos científicos.

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Ainda que Be Right Back siga a lógica formulaica do pessimismo apocalíptico de Black Mirror, o episódio traz questionamentos e visualizações de cenários diante de questões relacionadas à consciência e ao self. Ao perder seu marido, a protagonista compra um androide com a personalidade emulada das redes sociais do marido. Com o tempo, o questionamento passa a ser: será que somente isso seria capaz de definir uma consciência ou que é o self a ponto de ele existir em outro substrato, no caso, um androide?

Na ficção científica, para além de este já ser um tropo amplamente explorado por gêneros como o cyberpunk, quando Black Mirror cria esse clima de angústia e de penalização diante do próprio subterfúgio cultural e simbólico que encontramos para lidar com a nossa própria morte (a noção de self, a busca por imortalidade através da transferência mental etc), isso não necessariamente ajuda a resolver ou refletir com maior profundidade sobre nosso trauma primordial, a consciência de morte.

Da mesma maneira que religiões podem apontar para “soluções” que preenchem esse abismo, como nomeado por Metzinger, e podemos criticá-las do ponto de vista institucional, por exemplo, novas temporadas de Black Mirror prestariam um melhor serviço se, assim como nas origens do cyberpunk, sua crítica fosse mais direcionada ao corporativismo e à exploração de nossas mentes e individualidades, bem como as problemáticas sociais, psicológicas, éticas e filosóficas que tais tecnologias e contextos implicam — assim como vimos nas duas primeiras temporadas da série, em episódios como The Entire History of You ou mesmo Be Right Back e The National Anthem.

Se a série continuar apostando na pura angústia, no simples estímulo da nossa amígdala cerebelosa, ela acabará se equiparando às produções hollywoodianas, que nada têm a oferecer senão a promoção do medo que surge pelo instituto de sobrevivência, não pela conclusão racional ou pelo esclarecimento.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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