Análise do vídeo Mein Herz brennt, do Rammstein

Originalmente parte do álbum Mutter (2001), a música Mein Herz brennt faz parte de um novo single lançado pela banda alemã Rammstein, neste ano. A gravação, que leva o mesmo nome da faixa, traz uma versão em piano, um remix da Boys Noise, uma canção inédita chamada Gib mir deine Augen e a versão do clipe, que foi divulgado no último dia 7. Dirigido por Zoran Bihać (que também trabalhou com a banda nos vídeos de Links 2–3–4, Mein Teil e Rosenrot), o clipe original (ou explícito) também conta com um outro que traz Till cantando Mein Herz brennt na versão piano. Ambas as obras audiovisuais foram gravadas na mesma locação, o antigo hospício Beelitz, mais especificamente no sanitário principal. Da primeira vez que vi, achei que o Rammstein estivesse outra vez trabalhando com o Gottfried Helnwein, já que tem todo um reforço monocromático, figuras enigmáticas e sombrias e também crianças — que é o que mais me fez pensar no artista austríaco. Mas não. Bem, dêem uma olhada na versão explícita.

Seria muito fácil associar toda essa imagética ao período nazista por motivos bastante óbvios e que já motivaram muitas pessoas a chegarem a essa conclusão: banda alemã, música cantada em alemão, violência, pessoas em condições desumanas, agonia etc. Mas, se a letra for observada separadamente, é possível perceber que a temática pode não falar sobre tal período histórico.

Mein Herz Brennt
Meu Coração Queima Nun liebe Kinder gebt fein acht Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção ich bin die Stimme aus dem Kissen eu sou a voz que vem do travesseiro ich hab euch etwas mitgebracht eu trouxe para vocês algo comigo hab es aus meiner Brust gerissen que arranquei do meu próprio peito mit diesem Herz hab ich die Macht com este coração, possuo o poder die Augenlider zu erpressen de exercer controle sobre as pálpebras ich singe bis der Tag erwacht eu canto até o dia despertar ein heller Schein am Firmament uma luz brilhante no firmamento Mein Herz brennt Meu coração queima Sie kommen zu euch in der Nacht Eles vêm até vocês à noite Dämonen Geister schwarze Feen Demônios espíritos fadas negras sie kriechen aus dem Kellerschacht Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas und werden unter euer Bettzeug sehen E vêm espiar embaixo de suas cobertas Nun liebe Kinder gebt fein acht Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção ich bin die Stimme aus dem Kissen eu sou a voz que vem do travesseiro ich hab euch etwas mitgebracht eu trouxe para vocês algo comigo ein heller Schein am Firmament uma luz brilhante no firmamento Mein Herz brennt Meu coração queima Sie kommen zu euch in der Nacht Eles vêm até vocês à noite und stehlen eure kleinen heißen Tränen e roubam suas cálidas pequenas lágrimas sie warten bis der Mond erwacht eles esperam até que a lua desperte und drücken sie in meine kalten Venen e se esquivam dentro das minhas veias frias Nun liebe Kinder gebt fein acht Agora, lindas crianças, prestem bastante atenção ich bin die Stimme aus dem Kissen eu sou a voz que vem do travesseiro ich singe bis der Tag erwacht eu canto até o dia despertar ein heller Schein am Firmament uma luz brilhante no firmamento Mein Herz brennt Meu coração queima

Segundo informação retirada do Wikipedia, do verbete sobre o single em inglês, a música aborda um narrador que descreve os terrores de seus pesadelos, de modo que os primeiros versos (Nun, liebe Kinder, gebt fein Acht. Ich habe euch etwas mitgebracht”) foram retirados de um programa de tv infantil dos anos 1950, chamado Das Sandmännchen (O pequeno Sandman). Em todo episódio, o personagem contava histórias de dormir, o que acabou inspirando uma versão mais obscura, nessa composição do Rammstein.

Capa do single Mein Herz brennt

Essa personagem mascarada que aparece tanto no clipe quanto na figura acima lembra figuras que fazem parte da história espanhola, na qual o chapéu pontiagudo feito de papelão, chamado “capirote”, era usado por flagelados, por sentenciados de pena capital e, durante a Inquisição, os acusados eram obrigados a vestir o modelo ao serem postos sob humilhação em público. O capirote também compunha a indumentária dos nazarenos espanhóis durante alguns de seus atos, na época da Páscoa. Mais tarde, esse mesmo acessório apareceria como inspiração ao grupo Ku Klux Klan que, originalmente, teria se baseado no filme Birth of a Nation, de D. W. Griffith, cujos estilistas retiraram a informação, justamente, do capirote.

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Cena de Birth of a Nation
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Geißlerprozession (1812–1814), ou Procissão dos Flagelados, de Goya
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No hubo remedio (1799), de Goya, parte da coleção Los Caprichos

Nessa última imagem, podemos vislumbrar que a roupa do personagem central se parece muito com a qual Till veste no começo do clipe, ao usar a máscara com seus olhos impressos e também na versão em piano da música.

Bem, essa é uma alusão que pode ser feita quanto aos elementos pictóricos e suas referências. Acredito que o uso desse chapéu em figuras obscuras seja uma forma que a cultura pop tem se apropriado para criar seres assustadores, desde os Pyramid Heads de Silent Hill até os personagens das fotografias do artista finlandês Juha Arvid Helminen. Mas mais que isso, acho que o vídeo se preocupa em trazer um aspecto onírico próprio ao pesadelo, ainda que este não seja totalmente surreal e despedaçado, porque acompanhamos narrativa mais ou menos linear que se mostra conectada com um passado, que aparece no começo do vídeo na forma de uma foto de uma classe ou de um grupo de crianças, que também é exposto diante de uma parede, vestindo sacos com caretas desenhadas.

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E eu tomo essa referência como a mais forte no vídeo do que qualquer ligação com o nazismo que eventualmente possa aparecer. É o fio da meada da minha análise¹. Penso que os pesadelos da letra tenham sido interpretados como pesadelos da infância de um grupo de pessoas, no caso, interpretado pela banda. Esses personagens teriam crescido num orfanato, no qual eram cuidados por uma mulher, que aparece ora como um ser quase assexuado, ora como jovem e ora como velha.

No primeiro caso, há duas diferentes aparições, uma como ser que vem perturbar à noite (Sie kommen zu euch in der Nacht/Dämonen, Geister, schwarze Feen/sie kriechen aus dem Kellerschacht/und werden unter euer Bettzeug sehen — Eles vêm até vocês à noite/Demônios, espíritos, fadas negras/Eles se arrastam para fora de cavernas subterrâneas/e vêm espiar debaixo de suas cobertas), mas essa mesma figura nua também aparece com uma armação para vestidos antigos, sob a qual esconde ou protege suas crianças, e numa clínica ginecológica — nesses dois últimos exemplos, percebemos que se trata de uma mulher.

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A criatura que surge à noite para perturbar e causar pesadelos, o mesmo demônio ou goblin que citei em minha monografia Kunst ist Krieg e que dá nome à banda na qual me foquei, a austríaca Nachtmahr. Este é o nome do ser mitológico germânico que deita no peito da vítima, sufocando-a e dizendo-lhe coisas ao pé do ouvido, de modo a fazê-la ter maus sonhos, como representado em pinturas de Johann Heinrich Füssli

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Aqui a figura materna a proteger crianças
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Numa das partes do vídeo, essa mesma personagem aparece numa espécie de consultório ginecológico, tentando utilizar um instrumento em sua região pélvica, o que faz parecer algum tipo de método abortivo

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Da primeira vez que vi esse cenário hospitalar, no qual a figura feminina está sob a inspeção de um grupo de homens, os quais são os integrantes da banda, pensei que talvez se tratasse de uma analogia de uma forma de eles atingirem a personagem feminina que povoa suas mentes através de uma terapia ou análise, por exemplo, mas depois vi que era mais uma cena ginecológica, como um parto. De qualquer forma, acho que essa última conclusão não descarta a primeira, porque ainda estamos em âmbito clínico e a metáfora se estenderia à medida que essa personagem é uma mulher responsável por cuidar das crianças apresentadas no clipe e são estas mesmas que fazem seu parto — ou continuam seu procedimento abortivo, portanto, trata-se de uma mulher que não está pronta ou não está na posição de ser mãe, naquele momento, que tem filhos postiços e que não os reconheceria também.

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Nesse trecho do vídeo (figuras acima), o personagem de Till confronta a mulher que teria cuidado dele durante sua infância e, por isso, ele a revisita em sua juventude (memória infantil), mas também em sua velhice (memória mais recente e amadurecida). A figura feminina, sempre representada como frágil e pura ao longo do clipe, aparece aqui munida de uma arma, o que a põe na defensiva, como alguém que está pronta para matar, isto é, atacar. Ela protege suas crianças assim como quando as põe debaixo da sua saia, em seu “ninho”, mas isso não significa que seus métodos não deixem de ferir esses indivíduos.

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Essa cena tanto poderia ser pensada como um método de tortura ou de experimentação com as crianças, sendo revivido no personagem já adulto. Isso é reforçado em outras partes, quando uma garota é visitada durante à noite pela “fada negra” (lembrando a veste negra da figura feminina), então toda em branco, como um fantasma e um demônio que lhe causa pesadelos. Detalhe para o crucifixo no pescoço da personagem.

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Ou seja, essas crianças realmente eram submetidas a tratamentos desumanos, ainda que sua “tutora” possua traços angelicais — o que torna o procedimento ainda mais aterrorizante.

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E, por isso, as crianças vestem máscaras de expressão enigmática — não sorriem, mas também não choram, não demonstram nada, apenas escondem. Estão presas num porão onde são assombradas pela figura de chapéu pontiagudo, o horror da infância, que está sempre presente para vigiá-las em seu cativeiro — no porão da mente, no inconsciente. Essa representação acaba ganhando os trajes dos condenados da Inquisição espanhola, como na figura de Goya, que inclusive faz parte de uma coleção na qual o artista propunha uma crítica anticlerical. É possível, então, que a presença do crucifixo no pescoço da mulher não seja assim tão gratuita, mas também traga uma mensagem próxima à do pintor espanhol. Portanto, a narrativa se passaria num orfanato dirigido por freiras, mulheres religiosas — o que é uma prática bem comum.

Assim, as crianças crescem ali, trancafiadas, vigiadas por um trauma que permanece em seu coração, “queimando”, querendo explodir seja em forma de ódio/violência ou de amor/paixão. É por isso que o personagem de Till, ao mesmo tempo que tenta sufocar a mulher, também a beija com furor. É a pulsão de Eros e de Tânatos, na qual Freud rememora como popularmente chamado de “ambivalência de sentimentos”, mas que diz respeito sobre a tênue linha entre amor e ódio².

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“O que mais facilmente se observa e é mais acessível à compreensão é o fato da freqüente coexistência, na mesma pessoa, de um intenso amor e de um ódio intenso. A psicanálise acrescenta ainda a tal que ambos os impulsos sentimentais contrapostos tomam, não raro, também a mesma pessoa como objeto. Só após a superação de todos estes “destinos da pulsão” se apresenta o que denominamos o caráter de um homem, o qual, como se sabe, só muito insuficientemente se pode classificar como “bom” ou “mau”” (FREUD, 1915)

Libertados desse ódio, sentimento anímico, como diz Freud (e me faz remeter à figura feminina da anima em contraposição ao masculino do animus segundo Jung, já que o ódio, no vídeo, é concentrado em uma mulher), essas crianças, então homens, podem fugir do porão onde ficaram trancafiados, presos pelo trauma e pelas memórias, tomando a decisão que os daria um caráter, já que eles superaram essa pulsão após “matarem” o seu ódio (enforcando a mulher) e queimando suas memórias, isto é, o orfanato. E tudo isso acontece num processo doloroso, no qual Till tem seu peito perfurado, seu coração arrancado e comido, lembrando a expressão “eat someone’s heart”, que significa sentir uma amarga angústia ou tristeza.

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“As evoluções psíquicas possuem, de fato, uma peculiaridade que não ocorre em nenhum outro processo evolutivo. Quando uma aldeia se torna cidade ou uma criança se faz homem, a aldeia e a criança são absorvidas pela cidade e pelo homem. Só a recordação pode delinear os antigos traços na nova imagem; na realidade, os materiais ou as formas anteriores foram deixados de lado e substituídos por outros. As coisas passam-se de modo diferente numa evolução psíquica” (FREUD, 1915)

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Reparem no chapéu pontiagudo e como a figura negra que veste o mesmo acessório continua sendo parte deles mesmos, ou seja, é o próprio trauma. Aqui fogem como crianças, de modo que deveriam ter feito isso muito antes, mas só conseguem fazer na maturidade, ao se tornarem homens e enfrentarem uma evolução psíquica

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Outrora amparados pela “tutora”, agora carregando as tochas que incendiam seus passados e medos

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No final, eles fogem dessas memórias, destruindo-as, mas ainda olham para trás. O que me faz pensar… será que é tão fácil assim superar um medo ou um trauma? Apenas sufocando-o, matando-o? Como a aldeia ao se tornar cidade ou a criança ao se tornar homem? Será que eles não continuariam “presos à barra da saia da mãe”, como diz um dito popular? Uma possível resposta vem também de Freud

“Dada a falta de mutações, o estado psíquico anterior pode não se ter manifestado em muitos anos, no entanto, persiste de tal modo que em qualquer momento se pode tornar de novo a forma expressiva das forças anímicas, e até a única, como se todas as evoluções ulteriores se tivessem anulado ou regredido. Esta plasticidade extraordinária das evoluções psíquicas não é, na sua orientação, ilimitada; pode considerar-se como uma faculdade especial de involução — regressão — pois sucede, por vezes, que um estádio evolutivo ulterior e superior, que foi abandonado, já de novo se não pode alcançar. Mas os estados primitivos podem sempre ser reconstituídos; o psíquico primitivo é, no sentido mais pleno, imperecível. As chamadas enfermidades mentais despertarão no leigo a impressão de que a vida mental e psíquica ficou destruída. Na realidade, a destruição concerne apenas a aquisições e a desenvolvimentos ulteriores. A essência da enfermidade mental consiste no retorno a estados anteriores da vida afectiva e da função” (FREUD, 1915)

Acredito que esse retorno seja percebido na versão em piano da música. O vídeo, que conta apenas com a atuação do vocalista Till Lindemann, é extremamente expressivo ao demonstrar a loucura e sofrimento do personagem que, no fim das contas, retorna ao calabouço, ao porão de suas memórias, retrocedendo ao seu estado primitivo de medo e sombras. É nesse momento que sobe uma fumaça, como um espírito libertado, não mais através da superação psíquica, mas talvez pelo método da morte.

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Referências

FREUD, Sigmund. Escritos sobre a guerra e a morte. 1915

Mein Herz brennt — Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Mein_Herz_brennt

¹ Esta é uma análise rápida e superficial do clipe, a qual poderia ser ainda mais desenvolvida, mas quis me ater a apenas algumas possibilidades e interpretações pessoais, sem nenhuma pretensão acadêmica ou científica.

² Ainda poderia abordar a questão de Édipo, mas não acredito que isso tenha um peso muito grande neste clipe.

Originally published at kunstistkrieg.blogspot.com.br on May 29, 2015.

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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